pré-actas 
Dia 1 . Quinta-feira, 23 de Abril de 2009
09h00
Recepção de participantes e entrega de documentação.
09h30
Miguel ALMEIDA . Estruturas negativas da Pré-história recente e Proto-história peninsulares: uma reflexão sobre o potencial do registo arqueológico e perspectivas de investigação.
A execução dos diversos projectos incluídos no empreendimento do Alqueva tem vindo a revelar um
número muito significativo de sítios pré e proto-históricos cujo registo arqueográfico é frequentemente
constituído apenas pelos preenchimentos de estruturas negativas.
Nestes termos, a realização da presente reunião de trabalho justifica-se pela necessidade de
apreciação conjunta de observações e perspectivas diversas acerca de um enorme volume de informação que,
por resultar de intervenções muito recentes, permanece ainda largamente inédito.
De resto, verifica-se actualmente uma assinalável dinâmica de investigação acerca deste tema noutras
áreas da Península, sempre em resultado da multiplicação de novas descobertas de sítios desta natureza,
motivando novos trabalhos de campo e de análise, o incremento das abordagens arqueométricas e o
desenvolvimento do quadro teórico-interpretativo.
Entre as primeiras preocupações dos investigadores, surge sempre a averiguação da atribuição
crono-cultural destas estruturas, repetidamente complicada pela frequente ablação da estratificação
superior, que tende a deixar estes registos arqueoestratigráficos desconexos de quaisquer relações
estratigráficas directas.
Paralelamente, também vem sendo largamente discutida a funcionalidade destas estruturas negativas
(estruturas de combustão, fundos de wsana, silos, lixeiras, espaços funerários, depósitos votivos, …),
eventualmente a relacionar com a profunda diversidade registada a respeito dos morfotipos das estruturas
e da caracterização dos conjuntos artefactuais contidos: exclusivamente cerâmicos (homogéneos ou não),
vestígios metálicos / metalúrgicos, vestígios líticos (talhados e/ou polidos), restos faunísticos (fauna
mamalógica, malacológica e micro-fauna), elementos vegetais e vestígios osteo-arqueológicos humanos.
Uma atenção particular tem sido prestada à presença nestas estruturas de vestígios osteoarqueológicos
humanos, cuja interpretação correcta contudo, talvez exija ainda um outro rigor na análise da frequência,
repartição espacial intra-sítio, repartição entre sítios, relações estratigráficas, modalidades de
deposição, processos de degradação e perfis paleobiológicos das populações inumadas.
Se as dificuldades referidas a respeito da atribuição crono-cultural destes contextos arqueológicos
exigem a opção decidida por programas coerentes de datação radiométrica e de análise arqueométrica dos
materiais que possam confortar os resultados da tipo-tecnologia, nomeadamente cerâmica, a correcta
interpretação dos fenómenos arqueológicos testemunhados nos conteúdos das estruturas negativas da
Pré-história não poderá fazer-se sem uma crítica tafonómica sistemática que permita reconstituir em cada
caso os processos de formação e evolução post-deposicional destes registos arqueoestratigráficos, desde
logo identificando os agentes responsáveis por esta evolução.
Tal posição metodológica de base será imprescindível para permitir o acesso à infomação indispensável
para a dita reconstituição da funcionalidade das estruturas e dos sítios arqueológicos em questão,
nomeadamente: a caracterização da integridade dos conjuntos artefactuais; a duração de funcionamento
activo das estruturas; a sua organização espacial; e a sua relação eventual com outras estruturas
(positivas) e áreas funcionais hoje desaparecidas do registo estratigráfico.
Serão estas — a par da relação com outros sítios coetâneos e com o teritório envolvente — as etapas
fundamentais de um processo de investigação que vise contribuir para uma reconstituição paletnológica
destas sociedades, a partir de tão escassos testemunhos do seu quotidiano e estratégias sócio-económicas.
O caminho, porém, parece longo e talvez deva ainda reflectir-se sobre quais as questões a colocar ao
registo arqueoestratigráfico existente e definir os métodos de interrogação desse registo, a fim de poder
produzir conjuntos documentais sólidos e observações fiáveis que permitam sustentar ulteriores
reconstruções interpretativas.
09h45
Susana NUNES, Mónica CORGA, Miguel ALMEIDA, MariaTeresa FERREIRA, Lília BASÍLIO, Maria João NEVES . Casarão da Mesquita 4 (S. Mancos, Évora, Portugal): estado actual dos nossos conhecimentos… e interrogações!
A identificação, em sede de acompanhamento arqueológico, de 16 estruturas escavadas no substrato
geológico no sítio do “Casarão da Mesquita 4” durante os trabalhos de acompanhamento arqueológico da
Empreitada de Aproveitamento Hidro-agrícola de Monte Novo, promovidos pela EDIA, determinou a necessidade
de uma intervenção de Arqueologia preventiva na área a afectar pela obra.
Esta intervenção, realizada por uma equipa da Dryas, permitiu reconhecer um total de 68 manchas
implantadas no topo e encostas NE e SW de um pequeno wseço de vertentes suaves, com ampla visibilidade
para a Ribeira do Albardão. A escavação subsequente, realizada com recurso a uma metodologia apropriada,
e que implicou o seccionamento de cada estrutura de forma a obter um perfil estratigráfico dos enchimentos,
confirmaria corresponderem 59 destas manchas a estruturas negativas de origem antrópica. Estas estruturas
apresentavam formas e dimensões variadas, e continham geralmente depósitos intra-estratificados que
incluíam materiais arqueológicos diversos.
A ablação agrícola da fracção superior da estratificação limita consideravelmente o estabelecimento
de relações cronológicas entre as diversas estruturas, sendo raros os casos de intercepções entre valas.
No entanto, o espólio arqueológico contido nos seus enchimentos sugere que o local tenha sido alvo de
ocupação antrópica em pelo menos dois momentos distintos, materializados em implantações topográficas
diferenciadas: se em época pré-histórica (Bronze Pleno/ Final) as estruturas se implantaram
preferencialmente a meia encosta da vertente NE da elevação, já em época histórica, o local de implantação
preferencial é agora o topo da elevação.
O estudo, ainda em curso, quer dos dados de campo, quer dos materiais arqueológicos recuperados nos
enchimentos das estruturas negativas exclusivamente de cronologia pré-histórica, permite apresentar já uma
série de observações sobre o sítio do “Casarão da Mesquita 4” acerca da estratificação e processos de
formação dos níveis arqueológicos, morfotipologia das estruturas negativas e material arqueológico
recuperado (cerâmico, metálico e osteoarqueológico).
Com base nestes dados esta apresentação pretende discutir: (1) a atribuição crono-cultural e
diacronia do sítio, com base na análise morfo-tecnológica dos materiais cerâmicos, nos dados fornecidos
pela análise química dos metais e na datação radiocronométrica do esqueleto; (2) a duração destas
estruturas; (3) a funcionalidade das estruturas negativas do Casarão da Mesquita 4, colocando diversas
hipóteses, sem nunca colocar de lado a possibilidade de terem sido utilizadas sucessivamente para diversas
funções distintas (note-se a presença de uma inumação em posição primária num dos níveis inferiores de
preenchimento de uma das estruturas); e, por fim, (4) organização espacial, quer interna do sítio, quer ao
nível das relações locais, nomeadamente na área da encosta do Albardão, que revelou uma intensa ocupação
da zona tendo sido aqui identificados outros sítios aparentemente coetâneas e com estruturas de tipologias
semelhantes, mas também à escala regional, no quadro da ocupação pré-histórica do Alentejo interior.
10h15
António MONGE SOARES, Ana Sofia ANTUNES, Manuela de DEUS . Povoados abertos de planície do Bronze final da bacia média do Guadiana: algumas reflexões.
Os povoados abertos de planície dos quais usualmente se conservam apenas as estruturas negativas
escavadas na rocha, consagrados na bibliografia arqueológica espanhola como “campos de hoyos”, constituem
um dos testemunhos antrópicos do passado mais difíceis de interpretar (e até mesmo de identificar)
independentemente da sua cronologia. Apesar de contar já com algumas décadas a investigação que lhes é
dirigida em determinadas áreas peninsulares, com destaque para a Meseta espanhola, continua imersa na
bruma a plena percepção das distintas problemáticas com eles relacionadas.
As lacunas no conhecimento destes sítios são tanto de micro como de macro-escala. No primeiro caso
porque, mesmo nos exemplos onde as áreas escavadas são expressivas (mas onde o tipo de estruturas e de
vestígios arqueológicos persiste em limitar-se quase exclusivamente aos testemunhos negativos que as
circunstâncias pós-deposicionais não eliminaram), continuamos a não compreender plenamente a organização
interna do habitat, nomeadamente a separação ou a mescla entre áreas domésticas, artesanais, produtivas,
de armazenagem e, mesmo, funerárias. Muitas vezes esta incerteza decorre da dificuldade em atribuir uma
funcionalidade concreta a cada uma das estruturas identificadas, a qual muito provavelmente foi sendo
alterada ao longo do tempo.
Da mesma forma, a aparente reocupação e transformação sucessiva do espaço interno do povoado, tanto
num tempo curto como num tempo longo, limitam a percepção da sua real dimensão e funcionalidades num
determinado período e, concomitantemente, a da comunidade que nele habitava. Estas ocupações disseminam-se
por vastas áreas, alcançando por vezes 10 hectares, sendo particularidade da margem esquerda do Guadiana
(no concelho de Serpa), numa leitura de superfície resultante de prospecções sistemáticas, a ocorrência de
núcleos no Bronze Final distanciados entre si de algumas dezenas ou de pouco mais de uma centena de metros,
podendo corresponder, na realidade, a um mesmo povoado (o que não significa que as ocupações indiciadas
sejam rigidamente sincrónicas). O mesmo fenómeno poderá antever-se em alguns dos sítios da margem direita
do Médio Guadiana (zonas de Évora e Beja), possivelmente também agrupáveis em habitats de maior dimensão.
Resulta fundamental estabelecer parâmetros cronológicos precisos e fiáveis, apoiados em datações
absolutas, que espartilhem as leituras latas do tempo baseadas apenas em afinidades artefactuais, até
porque se tem evidenciado nas intervenções arqueológicas recentemente realizadas que a cultura material do
Bronze do Sudoeste conhece uma diversidade que ultrapassa as tipologias (e cronologias) sistematizadas por
Schubart.
No que se refere à macro-escala, as dificuldades interpretativas aplicam-se à leitura fundamentada do
sistema integrado de povoamento, articulando estes sítios, desconhecidos até há muito pouco tempo no
Bronze Final alentejano, com os grandes povoados fortificados e de altura, todos eles destacados, tanto na
paisagem, como no papel potencial que desempenhariam no controle de eixos de circulação. Também a sua
correlação com os pequenos povoados, aparentemente fortificados, permanece por esclarecer.
Emergem, além de tudo isto, dúvidas quanto à durabilidade e ao grau de permanência destas ocupações,
invocando-se frequentemente o seu cariz temporário, sazonal, em virtude da aparente fragilidade que os
seus testemunhos preservados transmitem e/ou da sua localização em áreas que não permitiriam a sua ocupação
ao longo de todo o ano.
Procurar-se-á reflectir sobre as problemáticas assinaladas à luz dos dados do território actualmente
alentejano, contrastados com os resultados obtidos pela investigação em outras regiões peninsulares.
--- intervalo ---
11h00
Mariana DINIZ . Estruturas negativas do Neolítico antigo: na génese das "culturas do subsolo"?
Na última década, a sistemática identificação, em diferentes espaços peninsulares, de estruturas
negativas em contextos do Neolítico antigo tem contribuído para a criação de uma imagem substancialmente
mais complexa destas primeiras comunidades produtoras, relativamente à sua capacidade de elaboração
arquitectónica, que ultrapassa os “empedrados” e as lareiras, mais ou menos organizadas, que constituíam a
quase totalidade das estruturas conhecidas, nestes ambientes.
Nestes contextos crono-culturais, estas estruturas negativas que apresentam tipologias, dimensões e
funcionalidades muito diversificadas não parecem, com a excepção dos fossos de Mas d’Is, associadas a
mecanismos de monumentalização dos sítios, mas antes fundamentalmente conectadas com actividades de
produção de alimentos, seja no plano do armazenamento ou da transformação de produtos.
O aparecimento no registo arqueológico, de estruturas negativas constitui mais um elemento indicador
da entrada em cena do novo complexo cultural Neolítico e das inovações, em múltiplos planos da existência,
a que este está associado, dado que entre os caçadores-recolectores do Atlântico, que atingem no extremo
Ocidente da Península, níveis de estabilidade residencial significativos, estas estruturas, com excepção
das fossas abertas nos depósitos conquiferos da Moita do Sebastião, e de algumas das lareiras em cuvette,
não estão documentadas.
A escavação de substratos rochosos parece assim como uma prática tipicamente neolítica que apresenta
numa perspectiva diacrónica, e apesar da insuficiente caracterização do Neolítico médio, uma frequência
crescente, associada a novas formas de uso dos sítios – cíclicas ou continuadas – que integram estruturas
de longa duração.
As estruturas negativas surgem num cenário caracterizado por alterações e rupturas culturais e como
consequência da consolidação de um novo sub-sistema económico, e se podem em parte resultar de
“imperativos funcionais”, traduzem, em simultâneo, outras formas de apropriação física e simbólica do
espaço utilizado/construído.
Construir um inventário das estruturas negativas em contextos do Neolítico antigo, no actual
território português, descrevendo as morfometrias, os conteúdos, as funcionalidades definidas, ou presumidas
e as cronologias de uso constitui o primeiro objectivo desta comunicação que se orienta, depois, para a
discussão em torno dos significados destes elementos arquitectónicos no quadro da implantação e das lógicas
de gestão de territórios, recursos e espaços das primeiras sociedades neolíticas.
11h30
José Enrique Márquez ROMERO, Victor Jiménez JÁIMEZ . El zapatito de cristal de Cenicienta: sobre las estructuras en negativo y sus (muchas) denominaciones.
Desde hace décadas, predomina entre los investigadores del Neolítico-Calcolítico del suroeste de la
Península Ibérica el convencimiento de que las estructuras en negativo del tipo fosa cumplieron todas o
una parte considerable de las funciones prácticas, tanto residenciales como económicas, que caracterizan a
los asentamientos estables y de larga ocupación. Si bien no todos los estudiosos proponen las mismas
funciones, la opinión mayoritaria asimila los “campos de hoyos” a poblados consolidados porque poseen
vestigios de estructuras de habitación subterráneas o semisubterráneas, los “fondos de wsaña”, y porque
en ellos proliferan las evidencias de prácticas de almacenamiento de cereal, los “silos”. La falta de
muchos de los elementos que, según tales hipótesis, habrían de caracterizar a tales sitios, como
construcciones superficiales de envergadura, sistemas defensivos en positivo o la parte exenta de las
wsañas semisubterráneas, se ha resuelto aludiendo a unos supuestos procesos destructivos
posdeposicionales.
Sin embargo, la extraordinaria confusión terminológica existente indica que el registro arqueológico
es sumamente ambiguo. De hecho, en diversos trabajos hemos ido señalando la dificultad para admitir la
interpretación de muchas de estas estructuras como wsañas o silos subterráneos (Jiménez 2006-2007; 2007;
Jiménez y Márquez 2006; Márquez et al. 1999; Márquez y Fernández 2002). De igual manera, hemos puesto de
manifiesto que los mencionados procesos posabandono han quedado casi siempre pendientes de contrastar, y
que las propuestas sobre la formación de dichos yacimientos se han visto lastradas por concepciones ya
desfasadas acerca de los procesos de formación del registro arqueológico (Jiménez 2007; Jiménez y Márquez,
2006; e.p.; Márquez 2004b; 2006a; 2006b; 2007; Márquez y Fernández 2002; Márquez y Jiménez 2008; e.p.).
Por ello, creemos que se debe retornar hasta el momento en que se establecieron las preconcepciones
a las que hemos aludido; para nosotros, esto implica retroceder en el tiempo hasta una etapa pre-Siret o
pre-Bonsor, dado que fue entonces cuando comenzaron a forjarse las hipótesis sobre la formación del
registro arqueológico en estos stios, así como conceptos como el de silo subterráneo o el de fondo de
cabaña.
Ideas preconcebidas aparte, la realidad es que el registro empírico del IV y parte del III milenio AC
en Europa Occidental se reduce en buena medida a estructuras excavadas en el terreno y colmatadas por
depósitos arqueológicos. De entrada, ése es el registro con el que contamos, y de él debemos partir. Sólo
si somos capaces de comprender los procesos de formación de los sitios en cuestión, podremos incrementar
el nivel de abstracción para intentar desentrañar qué dinámicas sociales podrían haber tenido como
resultado una disposición y naturaleza de los depósitos arqueológicos como las que identifican las
excavaciones realizadas.
En este sentido, la postura que adoptamos implica la aceptación de que la formación de los rellenos
arqueológicos y, por ende, la colmatación de las estructuras negativas en cuestión, se encontraba tan
controlada y era tan intencionada como podía serlo la propia excavación de dichas estructuras, si bien
ello no justifica por sí solo la caracterización de los campos de hoyos como santuarios o lugares
exclusivamente rituales, opinión con la que no comulgamos.
12h00
António VALERA . Estruturas negativas em fossa da Pré-história recente: abordagens, conteúdos e interpretações.
Na presente comunicação procurar-se-á discutir alguns dos problemas que actualmente se colocam à
abordagem e interpretação das estruturas negativas em fossa na Pré-História Recente. Serão discutidos os
problemas da diversidade morfológica e funcional, da “biografia” deste tipo de estruturas, da sua
visibilidade / invisibilidade, das suas relações contextuais e interdependências funcionais, das suas
implicações ao nível da organização espacial e concepções ideológicas. Simultaneamente, serão evidenciados
e debatidos alguns problemas no que respeita às práticas metodológicas em contexto de minimização de
impactes.
12h30
Maria Teresa FERREIRA, Maria João NEVES . O estranho mundo dos enterramentos em fossa: abordagem arqueotanatológica e paletnológica de algumas comunidades pré e proto-históricas do Sudoeste da Peninsula Ibérica.
Em virtude da natureza linear e da ampla expressão geográfica do projecto, as acções de minimização
de impactes arqueológicos decorrentes do empreendimento de Alqueva, patrocinados pela EDIA, vêm acumulando
m volume de dados arqueológicos com um impacto decisivo na compreensão de diversos momentos da Pré e
Proto-história alentejanas. Um dos exemplos deste impacto positivo na produção de informação arqueológica
reside na identificação e escavação de múltiplos contextos funerários datáveis da Pré-história recente e
Proto-história, que surgem em estruturas negativas, regra geral sem expressão topográfica ou arqueológica
à superfície e, por isso, indetectáveis sem a realização de trabalhos em profundidade. O acompanhamento
arqueológico daquele projecto tem permitido a identificação destes contextos funerários, suprindo a
evidente impossibilidade prática de realização de semelhantes áreas de sondagem/decapagem em sede de
Arqueologia programada.
A exploração deste registo arqueográfico, que transforma profundamente a compreensão das práticas funerárias
daquelas épocas, levanta porém um complexo conjunto de dificuldades (relacionadas com as condições de
deposição e práticas funerárias; o controlo dos mecanismos de formação e evolução pós-deposicional dos
níveis arqueológicos; e a cronologia relativa, absoluta e diacronia das práticas identificadas) que só
podem abordar-se eficazmente a partir da implementação de uma metodologia rigorosa de recuperação do
material arqueológico e osteoarqueológico e da informação espacial, estratigráfica e tafonómica associada.
Aplicada à escavação de diveros sítios arqueológicos (Casarão da Mesquita 4, Monte da wsida 3,
Torre Velha 3, entre outros) localizados no Alentejo interior, esta metodologia — que exige uma integração
da Arqueologia e da Antropologia desde a fase dos trabalhos de campo — permitiu, não somente traçar o
perfil biológico dos indivíduos inumados, como também caracterizar as práticas funerárias identificadas,
destrinçando-as de processos pós-deposicionais de evolução do registo arqueoestratigráfico em que hoje os
seus vestígios surgem inclusos.
Nestas condições de rigoroso controlo tafonómico e compreensão da dinâmica de constituição e evolução
pós-deposicional do documento estratigráfico em que estão integrados estes vestígios funerários, as
observações efectuadas durante a escavação dos vários sítios permitiram identificar uma importante
diversidade de ritos funerários e modalidades de disposição de cadáveres (que incluem a deposição em cista
e em fossa de indivíduos de ambos os sexos e de várias classes etárias, sujeitos a diversos tratamentos
funerários: deposições primárias, secundárias; simples, múltiplas e colectivas), a interpretar no quadro
genérico do estudo das comunidades da Pré-história recente e Proto-história do interior alentejano.
--- almoço ---
14h30
Lídia BAPTISTA, Maria de Lurdes OLIVEIRA . Alguns contextos pré-históricos da região de Beringel e Trigaches (Beja). A problemática de interpretação de estruturas em negativo.
Durante a execução do projecto “Bloco de Rega do Pisão”, pela EDIA, S.A., foram detectadas várias
estações arqueológicas de cronologia Pré-Histórica Recente caracterizadas pela presença de estruturas em
negativo. A área deste projecto limitou-se, grosso modo, às bacias hidrográficas das ribeiras do Pisão e
do Álamo, nas freguesias de Beringel e Trigaches, concelho de Beja.
Esta área localiza-se na peneplanície do Baixo Alentejo, que pertence ao Sistema Aquífero dos Gabros
de Beja que corresponde às formações gabro-dioríticas que se estendem entre Ferreira do Alentejo, Beja e
Serpa, constituindo terrenos muito férteis, usualmente designados como “Barros de Beja”.
Os trabalhos de escavação foram executados por várias empresas de arqueologia, tendo a Arqueologia &
Património realizado, entre Agosto de 2007 e Abril de 2008, intervenções em várias estações.
Os dados de escavação encontram-se em fase de estudo por uma equipa multidisciplinar que contempla,
entre outros, investigadores das áreas de antracologia, palinologia, C14, arqueozoologia.
Nesta apresentação iremos debruçar-nos sobre alguns contextos escavados de cronologia Pré-Histórica
no sentido de problematizar a interpretação funcionalista, tradicionalmente aplicada.
15h00
Paulo REBELO, Raquel SANTOS, Nuno NETO . Os sítios de fossas de Entre Águas 5 e Corça 2 (Serpa).
Sítio de Entre Águas 5, Serpa
No decurso da identificação de algumas bolsas de materiais atribuíveis à Idade do Bronze durante o
acompanhamento arqueológico dos trabalhos de remoção de terras, inseridos na empreitada de construção da
barragem de Serpa, procedeu-se à escavação manual dos vestígios numa intervenção que decorreu entre Maio e
Junho de 2008.
Após a limpeza inicial de toda a camada superficial, bastante revolvida pelos trabalhos mecânicos, e
consequente definição dos contextos observados, identificaram-se três grandes estruturas habitacionais
negativas, em forma de “8”, e seis estruturas negativas tipo “fossa”, sobre as quais foram implantadas as
sondagens. O conjunto da área revelou assim dois diferentes tipos de ocupação: as wsanas em forma de “8”
e um alinhamento de fossas de forma ovalada; associados a um vasto e diversificado espólio material,
atribuível à Idade do Bronze final.
Os fundos de wsana são indícios de uma ocupação mais ou menos permanente, que serviriam de base a
uma estrutura em materiais perecíveis que se elevaria sobre esta. No entanto, apenas numa destas estruturas
foram identificados buracos de poste ao centro. Entre as três wsanas identificadas, destacam-se duas que
forneceram espólio em grande quantidade e diversidade. A primeira revelou contextos relativamente bem
preservados, registando-se a presença de duas manchas de materiais, com várias cerâmicas fracturadas in
situ, surgindo também associada alguma fauna, bem como vários termoclastos, fragmentos de argila cozida e
carvões, indícios de estruturas de combustão. Já o fundo de wsana na zona mais a Este da área de
intervenção, não permitiu identificar níveis de ocupação, sendo as diferentes camadas interpretadas como
de enchimento. No entanto, foi nesta estrutura que se recolheu maior diversidade e quantidade de materiais:
para além do grande número e qualidade das cerâmicas (entre estas destacando-se as decoradas com ornatos
brunidos), surge espólio lítico, em pedra talhada e polida, bem como um vasto conjunto de fauna,
principalmente mamalógica, mas também alguma malacológica. Mas o grande destaque é o dos artefactos
ligados à produção metalúrgica: cadinhos para a manufactura de bronze, moldes, algaravizes, restos de
escória, para além de alguns objectos, provavelmente em bronze, elementos de adorno como contas de colar e
uma pulseira, e ainda um rebite com a wseça em ouro, que certamente faria parte de um artefacto de
prestígio. Elementos que comprovam a produção metalúrgica neste local no Bronze final.
O alinhamento de fossas, de morfologia circular ou oval, constitui um contexto funcionalmente distinto
dos fundos de wsana e estaria provavelmente ligado ao armazenamento de determinados produtos,
presumivelmente relacionados com a agricultura. Entre os artefactos recolhidos destacam-se artefactos de
forma quadrangular, para as quais até ao momento não nos foi possível avançar qualquer aproximação
funcional, muito embora a sua morfologia levante a hipótese de constituírem uma espécie de suporte.
Trata-se de peças de pequenas dimensões (com cerca de 8cm de lado), com quatro superfícies profusamente
decoradas por incisão e sem fundo.
Este local veio trazer novos dados para o conhecimento das estratégias de ocupação na Idade do Bronze,
nomeadamente no que diz respeito à produção metalúrgica naquela região.
Sítio de Corça 2, Serpa
No sítio de Corça 2 foram identificadas, pela equipa de acompanhamento arqueológico dos trabalhos de
construção da barragem da Amoreira (Serpa), algumas estruturas negativas, escavadas no substrato geológico
e intervencionadas em duas fases distintas, em Junho e Agosto de 2008.
Na primeira fase, havia sido ainda identificada apenas uma das estruturas existentes. A sua escavação
manual colocou a descoberto um enterramento humano de adulto, em posição fetal, no interior de uma
estrutura negativa tipo “silo”.
Acompanhado de apenas quatro fragmentos cerâmicos de tipologia não identificável (um deles com
decoração de ornatos brunidos), duas lascas e três núcleos de quartzo e um percutor em quartzito, esta
inumação humana na posição fetal em decubitus lateral permite, pela sua própria tipologia e com base na
identificação do fragmento cerâmico decorado com ornatos brunidos, uma aproximação cronológica à Idade do
Bronze final.
Na segunda fase dos trabalhos foram escavadas duas bolsas antrópicas, em cujos enchimentos se
recolheu escasso material arqueológico, cuja análise preliminar parece apontar uma cronologia atribuível
ao período Neolítico final/Calcolítico inicial.
Os trabalhos de minimização de impactes sobre o património cultural por parte da EDIA S.A., têm
permitido colocar a descoberto na região várias realidades que se podem enquadrar dentro do mesmo tipo de
contexto intervencionado agora em Corça 2.
Este tipo ocupação é relativamente comum na região, surgindo no Monte da Pita 5 e 6 (Beringel), na
Pedreira de Trigaches 2 (Beja), Horta do Albardão 3 (Évora), Monte wsido 3 (Évora). Entre estes destaca-se
o Casarão da Mesquita 3 (Évora) onde foram intervencionadas 49 fossas de perfil oval, duas apresentando
inumações em decubitus lateral, associadas a espólio típico da Idade do bronze: elementos de foice e
cerâmica brunida.
O sítio de Corça 2 integra-se neste tipo de contexto. Fossas de perfil oval escavadas no substrato
geológico que, após terem sido usadas numa primeira fase como silos, são entulhadas, sendo por vezes
usadas como locais de inumação. Apresentam normalmente um espólio pobre, geralmente integrável entre o
III e o II milénio a.C.
15h20
Helena SANTOS . Contextos de fossas no sítio da Magoita (Brinches, Serpa).
No âmbito da Minimização de Impactes sobre o Património Cultural decorrente da execução do Bloco de
Rega de Briches foi identificado em fase de obra um conjunto de interfaces enquadráveis na Pré-história no
sitio de Magoita (Brinches).
A escavação destas realidades arqueológicas, cerca de 12 estruturas negativas, revelaram dois
contextos distintos: um deles tradicionalmente interpretado como uma wsana com materiais enquadráveis em
época Calcolítca e um enterramento em fossa da Idade do Bronze.
Para além da apresentação das características formais e da cultura material associada que permitem
esta conclusão, pretende-se também discutir em antítese as dificuldades de atribuição funcional e
cronológica a algumas daquelas estruturas, situação que neste caso específico corresponde a cerca de 80%
das que foram intervencionadas.No âmbito da Minimização de Impactes sobre o Património Cultural decorrente
da execução do Bloco de Rega de Briches foi identificado em fase de obra um conjunto de interfaces
enquadráveis na Pré-história no sitio de Magoita (Brinches).
A escavação destas realidades arqueológicas, cerca de 12 estruturas negativas, revelaram dois
contextos distintos: um deles tradicionalmente interpretado como uma wsana com materiais enquadráveis em
época Calcolítca e um enterramento em fossa da Idade do Bronze.
Para além da apresentação das características formais e da cultura material associada que permitem
esta conclusão, pretende-se também discutir em antítese as dificuldades de atribuição funcional e
cronológica a algumas daquelas estruturas, situação que neste caso específico corresponde a cerca de 80%
das que foram intervencionadas.
15h40
Maria João NEVES, Maria Teresa FERREIRA, Elena Morán, Ana Maria SILVA . Vestígios ósseos humanos no povoado de Alcalar - análise arqueotanológica de um contexto funerário em fossa.
No decurso da última campanha de escavações arqueológicas no povoado de Alcalar, dirigidas por Elena
Moran, foram descobertos no seio de uma estrutura negativa diversos vestígios osteológicos humanos.
Estes vestígios, recuperados de acordo com os princípios metodológicos da Antropologia de Terreno,
foram depois analisados em laboratório com vista à caracterização paleobiológica dos indivíduos e ao
estudo arqueotanatológico dos fragmentos ósseos recuperados.
Partindo de um conjunto de fragmentos ósseos desarticulados, tendo por base o recenseamento das peças
osteológicas presentes, a aferição do NMI, a identificação de ligações osteológicas de segunda ordem e a
análise da distribuição espacial dos fragmentos ósseos, foi possível, em parte reconstituir o ambiente
funerário original em que, pelo menos, dois indivíduos terão sido depositados. A obtenção de uma data
absoluta para este conjunto permitiu aferir a cronologia docontexto funerário, traçando com maior acuidade
a diacronia de ocupação do povoado de Alcalar.
A especificidade deste contexto será explorada nesta comunicação, procurando-se de igual modo comparar
os dados obtidos com outros de sítios coevos do sudoeste ibérico, de molde a caracterizar a relação entre
o mundo dos mortos e o dos vivos.
--- intervalo ---
16h20
Marta DÍAZ-ZORITA BONILLA . Análisis de los restos osteoarqueológicos documentados en estructuras negativas en el poblado calcolítico de Valencina de la Concepción, Sevilha (España).
El poblado de la Edad del Cobre de Valencina de la Concepción, Sevilla (España) comprende una
colección antropológica muy numerosa y alberga diferentes tipos de estructuras funerarias y rituales de
enterramiento. Algunas de las estructuras donde se han localizado los restos óseos, presentan cierta
problemática a la hora de interpretar el registro arqueológico, debido a sus diferentes funcionalidades.
Estas estructuras denominadas como negativas de morfología generalmente circular se encuentran excavadas
en la roca, y presentan diversos registros arqueológicos dentro de los diferentes ámbitos del poblado. La
ausencia de proyectos de investigación sistemáticos y el carácter de urgencia de la mayoría de las
excavaciones arqueológicas realizadas hasta la fecha, es el principal problema al que se enfrentan este
tipo de sitios aún indefinidos desde el punto de vista funcional. Este estudio analiza desde el punto de
vista osteoarqueológico los restos óseos humanos documentados en varias de estas estructuras localizadas
en el poblado de Valencina. Los resultados del análisis osteológico observan ciertos problemas tafonómicos,
y evidencian los diferentes usos de estos tipos de estructuras. Los valores demográficos deben ser tomados
con cautela y necesitan ser comparados con otros sitios del mismo contexto cronológico para realizar una
aproximación demográfica a la Edad del Cobre. Es necesario realizar análisis de los restos bioarqueológicos
localizados en estos contextos combinados con dataciones radiocarbónicas. De esta manera, se pueden obtener
los datos necesarios para encuadrar cronológicamente el periodo de uso de estos sitios. Es urgente la
reinterpretación de estas estructuras negativas, en combinación con la observación de los factores
expresados anteriormente, para la correcta lectura de los registros arqueológicos prehistóricos, entre los
cuales se encuentra el yacimiento de Valencina de la Concepción. No obstante, la sistematización de los
estudios de antropología física, así como de zooarqueología proporcionará datos cruciales sobre el
comportamiento humano y animal y los procesos rituales en la Prehistoria Reciente europea.
16h40
Lúcia MIGUEL, Ricardo GODINHO . Enterramentos em Fossa no Monte das Covas (São Matias, Beja).
A intervenção no Monte das Covas 3 permitiu a escavação de duas estruturas negativas com vestígios
funerários preservados. Na sondagem 3 foi escavado um hipogeu com uma câmara que continha vestígios
osteológicos de um número mínimo de dois indivíduos (um sub-adulto e um adulto). Estes não apresentavam
qualquer conexão anatómica e encontravam-se dispersos no depósito de enchimento. Na sondagem 7 foi escavada
uma fossa que continha um número mínimo de 16 indivíduos. Apenas um destes não apresentava qualquer
perturbação. Os restantes apresentavam perturbações pós deposicionais que resultaram na presença de ossos
sem conexão anatómica e em partes de esqueleto em conexão. No total foram registadas cerca de 40 conexões
anatómicas, devendo estas corresponder, certamente, a um número inferior de indivíduos.
A estas acresce uma fossa na qual se observou a presença de fragmentos de ossos longos pigmentados
com ocre. O seu pobre estado de preservação não permite afirmar peremptoriamente que se trata de ossos
humanos, contudo é um contexto claramente ritual.
Foi intervencionada, além das fossas com os enterramentos, mais uma fossa de forma circular de perfil
“em saco”, da qual não foram recolhidos nem materiais arqueológicos, nem dados que permitissem a
caracterização da sua funcionalidade.
Além destas foi ainda registado um conjunto de estruturas negativas, pouco profundas, de formas
variadas sem materiais arqueológicos e interligadas entre si do qual não foi possível confirmar a sua
natureza antrópica.
17h00
Marta Furtado, Maria Teresa Ferreira, Maria João Neves . Contextos funerários do sítio da Torre Velha 3 (Serpa): apresentação preliminar dos dados da Arqueotanatologia.
Na sequência de trabalhos de minimização de impactes no sítio arqueológico da Torre Velha 3 (Barragem
da Laje, Serpa) no âmbito do projecto hidrográfico da bacia do Alqueva, da responsabilidade da Palimpsesto,
Estudo e preservação do Património Cultural, Lda. foram encontrados vestígios osteológicos humanos de
períodos histórico e pré-histórico.
Estes vestígios osteoarqueológicos surgiam no quadro de um sítio arqueológico dominado pela presença
de um grande número de estruturas negativas preliminarmente atribuíveis à Idade do Bronze e Época
tardo-romana, em cujos preenchimentos os vestígios osteoarqueológicos estavam incluídos.
Com efeito, muitas das estruturas negativas pré e proto-históricos da Torre Velha 3 continham
indivíduos inumados, registando-se também uma diversidade muito significativa de rituais funerários, desde
logo no que respeita à própria morfologia da sepultura enterramentos em fossa, em nicho, e sepulturas em
câmara com ante-câmara.
Com recurso a uma metodologia baseada na Arqueotanatologia e especificamente adaptada aos contextos
de Arqueologia de salvamento, a equipa de Antropologia Styx/Dryas recuperou os restos ósseos de um número
mínimo de 75 indivíduos, de ambos os sexos e das várias faixas etárias.
A vasta maioria das sepulturas era individual, tendo porém algumas sido reutilizadas (de forma apenas
ocasional) e registando-se raros casos de inumações duplas. Os 75 indivíduos recuperados em conexão
anatómica encontravam-se geralmente em decúbito lateral, com os membros inferiores flectidos, lembrando a
posição fetal.
Faz-se uma apresentação preliminar dos dados arqueotanatológicos recolhidos durante a intervenção de
Antropologia de campo, nomeadamente no que concerne ao tipo de estrutura funerária, tipo de deposição,
número de indivíduos por estrutura, perfil biológico, e processo de decomposição.
17h20
Intervenção dos relatores científicos
Rui Parreira . (Direcção Regional de Cultura do Algarve)
Ana Maria Silva . (Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra)
Miguel Almeida . (Dryas Arqueologia)
18h00
Discussão.