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iDRYAS INVESTIGAÇÃO
Workshop Dryas 2010
Estruturas negativas da Pré-história recente e Proto-história peninsular: estado actual dos nossos conhecimentos e interrogações
> 23 e 24 de Abril de 2009
> Edifício EDIA (BEJA)
Rua Zeca Afonso, 2 . Beja (Portugal)

organização
> Dryas Arqueologia

apoio
> EDIA, SA.

programa científico (pdf)
(versão 2009.01.02)

O registo arqueográfico pré e proto-histórico peninsular tem revelado, em diferentes regiões, sítios arqueológicos maioritária ou exclusivamente constituídos por estruturas negativas, de morfologias diversas, em parte condicionadas por uma frequente ablação da sua fracção superior, facto que impede muitas vezes o estabelecimento de quaisquer relações estratigráficas directas com outras ocorrências arqueoestratigráficas.
Estas estruturas negativas, de dimensões variáveis, podem apresentar diferentes tipologias, possivelmente relacionadas com a sua funcionalidade, desde estruturas de combustão (lareiras, fornos) e fundos de wsana, de cariz doméstico ou ligadas a actividades produtivas, a fossas interpretadas como silos, lixeiras, espaços funerários ou mesmo, segundo alguns investigadores, albergando depósitos votivos.
Os conteúdos arqueológicos destas estruturas negativas podem ser bastante diversos: exclusivamente cerâmicos, morfo-tecnologicamente homogéneos ou não; com maior ou menor quantidade de vestígios metálicos / metalúrgicos e líticos; fauna; vestígios osteoarqueológicos humanos; elementos vegetais; etc. Do mesmo modo, também a estratificação interna descrita varia entre uma única unidade estratigráfica e sequências mais ou menos complexas de depósitos estratificados.
Face a uma tal diversidade de “estruturas negativas”, o tema escolhido para a realização deste workshop surge necessariamente amplo, abrangendo problemáticas muito distintas que respondem a aquela variabilidade estrutural (no limite, poderíamos mesmo ter incluído aqui a problemática dos fossos que formam recintos fechados, que porém preferimos excluir, por elementares razões de operacionalidade da reunião) e mesmo crono-cultural (entre o Neolítico / Calcolítico e Idade do Ferro).
Ora, o conjunto de problemas arqueológicos colocado pela interpretação destes vestígios tem conhecido recentemente um forte incremento da sua base documental arqueográfica na Península Ibérica e, nomeadamente na região portuguesa do Alentejo, onde a localização destes contextos arqueológicos — quase sempre muito difíceis de identificar em sede de prospecção por força da sua frequente escassa representação em material arqueológico de superfície — tem beneficiado fortemente — para além de estudos incluídos em projectos de investigação fundamental — dos trabalhos sistemáticos de minimização de impacto arqueológico das obras do projecto de aproveitamento agrícola dos recursos hídricos de Alqueva. É sobretudo neste âmbito que a Dryas tem intervencionado alguns sítios arqueológicos relevantes para esta discussão, dos quais se destaca o sítio do Casarão da Mesquita 4 (Encosta do Albardão, São Manços, Évora, Portugal), contíguo de vários outros sítios arqueológicos da mesma natureza intervencionados por outras equipas de Arqueologia na mesma Encosta do Albardão.
Contudo, pese embora a motivação imediata para realização da reunião seja efectivamente a multiplicação do registo arqueográfico decorrente do incremento recente de intervenções de salvamento na região portuguesa do Alentejo, nem por isso pode ignorar-se que tal sucede no quadro mais vasto do desenvolvimento do interesse por este tipo de contextos na Arqueologia peninsular desde já há alguns anos a esta parte, quer graças a uma concomitante revolução empírica noutras regiões peninsulares, quer ainda em resultado da evolução do debate teórico em torno da interpretação destes sítios. Em consequência, estes assuntos vêm ganhando uma dimensão sem precedentes no debate arqueológico peninsular, nomeadamente acerca da Pré-história, tendo já, de resto, motivado outras reuniões científicas de diferentes naturezas e âmbitos, em diversos pontos do território peninsular.
Verificando-se, como se disse, um aumento muito significativo do acervo documental de base para a análise da problemática científica em apreço, a interpretação destes sítios arqueológicos coloca hoje vários problemas específicos:
1º. Antes de mais, obviamente, a questão dos processos formação e evolução post-deposicional do registo estratigráfico conservado, incluída a questão fundamental dos agentes (antrópicos / não-antrópicos) responsáveis pela colmatação das estruturas negativas com os sedimentos que hoje constituem o seu preenchimento.
2º. A crítica tafonómica dos níveis arqueológicos resultante daquele primeiro conjunto de problemas será, por outro lado, fundamental para a compreensão das questões relativas à funcionalidade destas estruturas negativas, designadamente aquelas de forma mais regular, mais profundas e de menor diâmetro, interpretadas ora como silos, ora como lixeiras, ora como estruturas técnicas, ora como estruturas de inumação, sem que (quase) nunca o registo arqueográfico pareça verdadeiramente ajustar-se na perfeição à interpretação proposta; para mais, não devendo esquecer-se a possibilidade muito plausível de uma mesma estrutura ter sucessivamente servido diferentes funcionalidades.
3º. A questão da duração do funcionamento destas estruturas negativas, para a qual são relevantes, além da sua datação radiocronométrica, uma caracterização rigorosa do seu enchimento, da sua sequência estratigráfica interna, dos processos de enchimento / colmatação, das inter-relações estratigráficas (tanto intercepções de fossas, como remontagens de materiais entre distintas estruturas negativas) e da morfologia destas estruturas negativas, bem assim como da eventual evolução morfotécnica dos conjuntos artefactuais ao longo dessas sequências.
4º. A questão de uma atribuição crono-cultural rigorosa do espólio arqueológico neles contido, a analisar no quadro do estudo da natureza e caracterização morfotecnológica desse espólio e balizada por datações absolutas. Deverá notar-se a larga diacronia normalmente existente intra-sítio, que pode incluir, de forma descontinuada, ocupações desde o Calcolítico ao Romano Tardio ou, mesmo, à Baixa Idade Média.
5º. A questão da presença de vestígios osteoarqueológicos humanos no enchimento destas estruturas negativas, em frequências que não parecem constantes de sítio para sítio, presença cuja interpretação não poderá endereçar-se sem uma caracterização rigorosa dos indivíduos aqui depositados, das suas posições, modalidades de decomposição e relação com o demais registo estratigráfico.
6º. A questão da organização interna do espaço à escala do sítio e dimensão global da área ocupada, cuja interpretação permanece hoje limitada pela natureza (preventiva ou de emergência) da maior parte das intervenções recentes que têm revelado este tipo de registo arqueográfico, facto que condiciona as circunstâncias em que se tem procedido à investigação destes sítios e a extensão da exploração desse registo.
7º A questão da relação espacial com outros sítios arqueológicos, sejam estes sítios semelhantes, sejam já contextos funerários ou habitacionais, correlação que surge muitas vezes prejudicada, quer pela dificuldade de identificação de muitos destes contextos, quer por problemas de conservação do registo arqueológico original.
Incluindo, por um lado, sessões de comunicações orais (apoiadas em suportes multimédia) tanto de carácter geral, sintético ou problematizante, como dedicadas à apresentação monográfica de sítios arqueológicos e, por outro lado, a análise directa de materiais arqueológicos e da informação arqueológica associada disponibilizada pelos participantes, esta reunião privilegiará o debate de ideias e a confrontação directa de argumentos, sempre que possível com base na comparação daqueles materiais e informação de campo e dos resultados de estudos e análises laboratoriais subsequentes.
A publicação dos resultados da reunião, sob a forma de actas de artigos individuais ou colectivos, incluindo eventualmente o resultado de projectos de colaboração científica resultantes da própria reunião será garantida pela Dryas Arqueologia.

contributos científicos
> Miguel ALMEIDA, Susana NUNES, Maria João NEVES, Maria Teresa FERREIRA
> António Monge SOARES, Ana Sofia ANTUNES, Manuela de DEUS, António Carlos VALERA

Dia 1 . Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

09h00
Recepção de participantes e entrega de documentação.

09h30
Miguel ALMEIDA . Estruturas negativas da Pré-história recente e Proto-história peninsulares: uma reflexão sobre o potencial do registo arqueológico e perspectivas de investigação.

09h45
Susana NUNES, Mónica CORGA, Miguel ALMEIDA, MariaTeresa FERREIRA, Lília BASÍLIO, Maria João NEVES . Casarão da Mesquita 4 (S. Mancos, Évora, Portugal): estado actual dos nossos conhecimentos… e interrogações!

10h15
António MONGE SOARES, Ana Sofia ANTUNES, Manuela de DEUS . Povoados abertos de planície do Bronze final da bacia média do Guadiana: algumas reflexões.

--- intervalo ---

11h00
Mariana DINIZ . Estruturas negativas do Neolítico antigo: na génese das "culturas do subsolo"?

11h30
José Enrique Márquez ROMERO, Victor Jiménez JÁIMEZ . El zapatito de cristal de Cenicienta: sobre las estructuras en negativo y sus (muchas) denominaciones.

12h00
António VALERA . Estruturas negativas em fossa da Pré-história recente: abordagens, conteúdos e interpretações.

12h30
Maria Teresa FERREIRA, Maria João NEVES . O estranho mundo dos enterramentos em fossa: abordagem arqueotanatológica e paletnológica de algumas comunidades pré e proto-históricas do Sudoeste da Peninsula Ibérica.

--- almoço ---

14h30
Lídia BAPTISTA, Maria de Lurdes OLIVEIRA . Alguns contextos pré-históricos da região de Beringel e Trigaches (Beja). A problemática de interpretação de estruturas em negativo.

15h00
Paulo REBELO, Raquel SANTOS, Nuno NETO . Os sítios de fossas de Entre Águas 5 e Corça 2 (Serpa).

15h20
Helena SANTOS . Contextos de fossas no sítio da Magoita (Brinches, Serpa).

15h40
Maria João NEVES, Maria Teresa FERREIRA, Elena Morán, Ana Maria SILVA . Vestígios ósseos humanos no povoado de Alcalar - análise arqueotanológica de um contexto funerário em fossa.

--- intervalo ---

16h20
Marta DÍAZ-ZORITA BONILLA . Análisis de los restos osteoarqueológicos documentados en estructuras negativas en el poblado calcolítico de Valencina de la Concepción, Sevilha (España).

16h40
Lúcia MIGUEL, Ricardo GODINHO . Enterramentos em Fossa no Monte das Covas (São Matias, Beja).

17h00
Marta Furtado, Maria Teresa Ferreira, Maria João Neves . Contextos funerários do sítio da Torre Velha 3 (Serpa): apresentação preliminar dos dados da Arqueotanatologia.

17h20
Intervenção dos relatores científicos
> Rui Parreira . (Direcção Regional de Cultura do Algarve)
> Ana Maria Silva . (Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra)
> Miguel Almeida . (Dryas Arqueologia)

18h00
Discussão.

pré-actas (pdf)

Dia 1 . Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

09h00
Recepção de participantes e entrega de documentação.

09h30
Miguel ALMEIDA . Estruturas negativas da Pré-história recente e Proto-história peninsulares: uma reflexão sobre o potencial do registo arqueológico e perspectivas de investigação.
A execução dos diversos projectos incluídos no empreendimento do Alqueva tem vindo a revelar um número muito significativo de sítios pré e proto-históricos cujo registo arqueográfico é frequentemente constituído apenas pelos preenchimentos de estruturas negativas.
Nestes termos, a realização da presente reunião de trabalho justifica-se pela necessidade de apreciação conjunta de observações e perspectivas diversas acerca de um enorme volume de informação que, por resultar de intervenções muito recentes, permanece ainda largamente inédito.
De resto, verifica-se actualmente uma assinalável dinâmica de investigação acerca deste tema noutras áreas da Península, sempre em resultado da multiplicação de novas descobertas de sítios desta natureza, motivando novos trabalhos de campo e de análise, o incremento das abordagens arqueométricas e o desenvolvimento do quadro teórico-interpretativo.
Entre as primeiras preocupações dos investigadores, surge sempre a averiguação da atribuição crono-cultural destas estruturas, repetidamente complicada pela frequente ablação da estratificação superior, que tende a deixar estes registos arqueoestratigráficos desconexos de quaisquer relações estratigráficas directas.
Paralelamente, também vem sendo largamente discutida a funcionalidade destas estruturas negativas (estruturas de combustão, fundos de wsana, silos, lixeiras, espaços funerários, depósitos votivos, …), eventualmente a relacionar com a profunda diversidade registada a respeito dos morfotipos das estruturas e da caracterização dos conjuntos artefactuais contidos: exclusivamente cerâmicos (homogéneos ou não), vestígios metálicos / metalúrgicos, vestígios líticos (talhados e/ou polidos), restos faunísticos (fauna mamalógica, malacológica e micro-fauna), elementos vegetais e vestígios osteo-arqueológicos humanos.
Uma atenção particular tem sido prestada à presença nestas estruturas de vestígios osteoarqueológicos humanos, cuja interpretação correcta contudo, talvez exija ainda um outro rigor na análise da frequência, repartição espacial intra-sítio, repartição entre sítios, relações estratigráficas, modalidades de deposição, processos de degradação e perfis paleobiológicos das populações inumadas.
Se as dificuldades referidas a respeito da atribuição crono-cultural destes contextos arqueológicos exigem a opção decidida por programas coerentes de datação radiométrica e de análise arqueométrica dos materiais que possam confortar os resultados da tipo-tecnologia, nomeadamente cerâmica, a correcta interpretação dos fenómenos arqueológicos testemunhados nos conteúdos das estruturas negativas da Pré-história não poderá fazer-se sem uma crítica tafonómica sistemática que permita reconstituir em cada caso os processos de formação e evolução post-deposicional destes registos arqueoestratigráficos, desde logo identificando os agentes responsáveis por esta evolução.
Tal posição metodológica de base será imprescindível para permitir o acesso à infomação indispensável para a dita reconstituição da funcionalidade das estruturas e dos sítios arqueológicos em questão, nomeadamente: a caracterização da integridade dos conjuntos artefactuais; a duração de funcionamento activo das estruturas; a sua organização espacial; e a sua relação eventual com outras estruturas (positivas) e áreas funcionais hoje desaparecidas do registo estratigráfico.
Serão estas — a par da relação com outros sítios coetâneos e com o teritório envolvente — as etapas fundamentais de um processo de investigação que vise contribuir para uma reconstituição paletnológica destas sociedades, a partir de tão escassos testemunhos do seu quotidiano e estratégias sócio-económicas.
O caminho, porém, parece longo e talvez deva ainda reflectir-se sobre quais as questões a colocar ao registo arqueoestratigráfico existente e definir os métodos de interrogação desse registo, a fim de poder produzir conjuntos documentais sólidos e observações fiáveis que permitam sustentar ulteriores reconstruções interpretativas.

09h45
Susana NUNES, Mónica CORGA, Miguel ALMEIDA, MariaTeresa FERREIRA, Lília BASÍLIO, Maria João NEVES . Casarão da Mesquita 4 (S. Mancos, Évora, Portugal): estado actual dos nossos conhecimentos… e interrogações!
A identificação, em sede de acompanhamento arqueológico, de 16 estruturas escavadas no substrato geológico no sítio do “Casarão da Mesquita 4” durante os trabalhos de acompanhamento arqueológico da Empreitada de Aproveitamento Hidro-agrícola de Monte Novo, promovidos pela EDIA, determinou a necessidade de uma intervenção de Arqueologia preventiva na área a afectar pela obra.
Esta intervenção, realizada por uma equipa da Dryas, permitiu reconhecer um total de 68 manchas implantadas no topo e encostas NE e SW de um pequeno wseço de vertentes suaves, com ampla visibilidade para a Ribeira do Albardão. A escavação subsequente, realizada com recurso a uma metodologia apropriada, e que implicou o seccionamento de cada estrutura de forma a obter um perfil estratigráfico dos enchimentos, confirmaria corresponderem 59 destas manchas a estruturas negativas de origem antrópica. Estas estruturas apresentavam formas e dimensões variadas, e continham geralmente depósitos intra-estratificados que incluíam materiais arqueológicos diversos.
A ablação agrícola da fracção superior da estratificação limita consideravelmente o estabelecimento de relações cronológicas entre as diversas estruturas, sendo raros os casos de intercepções entre valas. No entanto, o espólio arqueológico contido nos seus enchimentos sugere que o local tenha sido alvo de ocupação antrópica em pelo menos dois momentos distintos, materializados em implantações topográficas diferenciadas: se em época pré-histórica (Bronze Pleno/ Final) as estruturas se implantaram preferencialmente a meia encosta da vertente NE da elevação, já em época histórica, o local de implantação preferencial é agora o topo da elevação.
O estudo, ainda em curso, quer dos dados de campo, quer dos materiais arqueológicos recuperados nos enchimentos das estruturas negativas exclusivamente de cronologia pré-histórica, permite apresentar já uma série de observações sobre o sítio do “Casarão da Mesquita 4” acerca da estratificação e processos de formação dos níveis arqueológicos, morfotipologia das estruturas negativas e material arqueológico recuperado (cerâmico, metálico e osteoarqueológico).
Com base nestes dados esta apresentação pretende discutir: (1) a atribuição crono-cultural e diacronia do sítio, com base na análise morfo-tecnológica dos materiais cerâmicos, nos dados fornecidos pela análise química dos metais e na datação radiocronométrica do esqueleto; (2) a duração destas estruturas; (3) a funcionalidade das estruturas negativas do Casarão da Mesquita 4, colocando diversas hipóteses, sem nunca colocar de lado a possibilidade de terem sido utilizadas sucessivamente para diversas funções distintas (note-se a presença de uma inumação em posição primária num dos níveis inferiores de preenchimento de uma das estruturas); e, por fim, (4) organização espacial, quer interna do sítio, quer ao nível das relações locais, nomeadamente na área da encosta do Albardão, que revelou uma intensa ocupação da zona tendo sido aqui identificados outros sítios aparentemente coetâneas e com estruturas de tipologias semelhantes, mas também à escala regional, no quadro da ocupação pré-histórica do Alentejo interior.

10h15
António MONGE SOARES, Ana Sofia ANTUNES, Manuela de DEUS . Povoados abertos de planície do Bronze final da bacia média do Guadiana: algumas reflexões.
Os povoados abertos de planície dos quais usualmente se conservam apenas as estruturas negativas escavadas na rocha, consagrados na bibliografia arqueológica espanhola como “campos de hoyos”, constituem um dos testemunhos antrópicos do passado mais difíceis de interpretar (e até mesmo de identificar) independentemente da sua cronologia. Apesar de contar já com algumas décadas a investigação que lhes é dirigida em determinadas áreas peninsulares, com destaque para a Meseta espanhola, continua imersa na bruma a plena percepção das distintas problemáticas com eles relacionadas.
As lacunas no conhecimento destes sítios são tanto de micro como de macro-escala. No primeiro caso porque, mesmo nos exemplos onde as áreas escavadas são expressivas (mas onde o tipo de estruturas e de vestígios arqueológicos persiste em limitar-se quase exclusivamente aos testemunhos negativos que as circunstâncias pós-deposicionais não eliminaram), continuamos a não compreender plenamente a organização interna do habitat, nomeadamente a separação ou a mescla entre áreas domésticas, artesanais, produtivas, de armazenagem e, mesmo, funerárias. Muitas vezes esta incerteza decorre da dificuldade em atribuir uma funcionalidade concreta a cada uma das estruturas identificadas, a qual muito provavelmente foi sendo alterada ao longo do tempo.
Da mesma forma, a aparente reocupação e transformação sucessiva do espaço interno do povoado, tanto num tempo curto como num tempo longo, limitam a percepção da sua real dimensão e funcionalidades num determinado período e, concomitantemente, a da comunidade que nele habitava. Estas ocupações disseminam-se por vastas áreas, alcançando por vezes 10 hectares, sendo particularidade da margem esquerda do Guadiana (no concelho de Serpa), numa leitura de superfície resultante de prospecções sistemáticas, a ocorrência de núcleos no Bronze Final distanciados entre si de algumas dezenas ou de pouco mais de uma centena de metros, podendo corresponder, na realidade, a um mesmo povoado (o que não significa que as ocupações indiciadas sejam rigidamente sincrónicas). O mesmo fenómeno poderá antever-se em alguns dos sítios da margem direita do Médio Guadiana (zonas de Évora e Beja), possivelmente também agrupáveis em habitats de maior dimensão.
Resulta fundamental estabelecer parâmetros cronológicos precisos e fiáveis, apoiados em datações absolutas, que espartilhem as leituras latas do tempo baseadas apenas em afinidades artefactuais, até porque se tem evidenciado nas intervenções arqueológicas recentemente realizadas que a cultura material do Bronze do Sudoeste conhece uma diversidade que ultrapassa as tipologias (e cronologias) sistematizadas por Schubart.
No que se refere à macro-escala, as dificuldades interpretativas aplicam-se à leitura fundamentada do sistema integrado de povoamento, articulando estes sítios, desconhecidos até há muito pouco tempo no Bronze Final alentejano, com os grandes povoados fortificados e de altura, todos eles destacados, tanto na paisagem, como no papel potencial que desempenhariam no controle de eixos de circulação. Também a sua correlação com os pequenos povoados, aparentemente fortificados, permanece por esclarecer.
Emergem, além de tudo isto, dúvidas quanto à durabilidade e ao grau de permanência destas ocupações, invocando-se frequentemente o seu cariz temporário, sazonal, em virtude da aparente fragilidade que os seus testemunhos preservados transmitem e/ou da sua localização em áreas que não permitiriam a sua ocupação ao longo de todo o ano.
Procurar-se-á reflectir sobre as problemáticas assinaladas à luz dos dados do território actualmente alentejano, contrastados com os resultados obtidos pela investigação em outras regiões peninsulares.

--- intervalo ---

11h00
Mariana DINIZ . Estruturas negativas do Neolítico antigo: na génese das "culturas do subsolo"?
Na última década, a sistemática identificação, em diferentes espaços peninsulares, de estruturas negativas em contextos do Neolítico antigo tem contribuído para a criação de uma imagem substancialmente mais complexa destas primeiras comunidades produtoras, relativamente à sua capacidade de elaboração arquitectónica, que ultrapassa os “empedrados” e as lareiras, mais ou menos organizadas, que constituíam a quase totalidade das estruturas conhecidas, nestes ambientes.
Nestes contextos crono-culturais, estas estruturas negativas que apresentam tipologias, dimensões e funcionalidades muito diversificadas não parecem, com a excepção dos fossos de Mas d’Is, associadas a mecanismos de monumentalização dos sítios, mas antes fundamentalmente conectadas com actividades de produção de alimentos, seja no plano do armazenamento ou da transformação de produtos.
O aparecimento no registo arqueológico, de estruturas negativas constitui mais um elemento indicador da entrada em cena do novo complexo cultural Neolítico e das inovações, em múltiplos planos da existência, a que este está associado, dado que entre os caçadores-recolectores do Atlântico, que atingem no extremo Ocidente da Península, níveis de estabilidade residencial significativos, estas estruturas, com excepção das fossas abertas nos depósitos conquiferos da Moita do Sebastião, e de algumas das lareiras em cuvette, não estão documentadas.
A escavação de substratos rochosos parece assim como uma prática tipicamente neolítica que apresenta numa perspectiva diacrónica, e apesar da insuficiente caracterização do Neolítico médio, uma frequência crescente, associada a novas formas de uso dos sítios – cíclicas ou continuadas – que integram estruturas de longa duração.
As estruturas negativas surgem num cenário caracterizado por alterações e rupturas culturais e como consequência da consolidação de um novo sub-sistema económico, e se podem em parte resultar de “imperativos funcionais”, traduzem, em simultâneo, outras formas de apropriação física e simbólica do espaço utilizado/construído.
Construir um inventário das estruturas negativas em contextos do Neolítico antigo, no actual território português, descrevendo as morfometrias, os conteúdos, as funcionalidades definidas, ou presumidas e as cronologias de uso constitui o primeiro objectivo desta comunicação que se orienta, depois, para a discussão em torno dos significados destes elementos arquitectónicos no quadro da implantação e das lógicas de gestão de territórios, recursos e espaços das primeiras sociedades neolíticas.

11h30
José Enrique Márquez ROMERO, Victor Jiménez JÁIMEZ . El zapatito de cristal de Cenicienta: sobre las estructuras en negativo y sus (muchas) denominaciones.
Desde hace décadas, predomina entre los investigadores del Neolítico-Calcolítico del suroeste de la Península Ibérica el convencimiento de que las estructuras en negativo del tipo fosa cumplieron todas o una parte considerable de las funciones prácticas, tanto residenciales como económicas, que caracterizan a los asentamientos estables y de larga ocupación. Si bien no todos los estudiosos proponen las mismas funciones, la opinión mayoritaria asimila los “campos de hoyos” a poblados consolidados porque poseen vestigios de estructuras de habitación subterráneas o semisubterráneas, los “fondos de wsaña”, y porque en ellos proliferan las evidencias de prácticas de almacenamiento de cereal, los “silos”. La falta de muchos de los elementos que, según tales hipótesis, habrían de caracterizar a tales sitios, como construcciones superficiales de envergadura, sistemas defensivos en positivo o la parte exenta de las wsañas semisubterráneas, se ha resuelto aludiendo a unos supuestos procesos destructivos posdeposicionales.
Sin embargo, la extraordinaria confusión terminológica existente indica que el registro arqueológico es sumamente ambiguo. De hecho, en diversos trabajos hemos ido señalando la dificultad para admitir la interpretación de muchas de estas estructuras como wsañas o silos subterráneos (Jiménez 2006-2007; 2007; Jiménez y Márquez 2006; Márquez et al. 1999; Márquez y Fernández 2002). De igual manera, hemos puesto de manifiesto que los mencionados procesos posabandono han quedado casi siempre pendientes de contrastar, y que las propuestas sobre la formación de dichos yacimientos se han visto lastradas por concepciones ya desfasadas acerca de los procesos de formación del registro arqueológico (Jiménez 2007; Jiménez y Márquez, 2006; e.p.; Márquez 2004b; 2006a; 2006b; 2007; Márquez y Fernández 2002; Márquez y Jiménez 2008; e.p.).
Por ello, creemos que se debe retornar hasta el momento en que se establecieron las preconcepciones a las que hemos aludido; para nosotros, esto implica retroceder en el tiempo hasta una etapa pre-Siret o pre-Bonsor, dado que fue entonces cuando comenzaron a forjarse las hipótesis sobre la formación del registro arqueológico en estos stios, así como conceptos como el de silo subterráneo o el de fondo de cabaña.
Ideas preconcebidas aparte, la realidad es que el registro empírico del IV y parte del III milenio AC en Europa Occidental se reduce en buena medida a estructuras excavadas en el terreno y colmatadas por depósitos arqueológicos. De entrada, ése es el registro con el que contamos, y de él debemos partir. Sólo si somos capaces de comprender los procesos de formación de los sitios en cuestión, podremos incrementar el nivel de abstracción para intentar desentrañar qué dinámicas sociales podrían haber tenido como resultado una disposición y naturaleza de los depósitos arqueológicos como las que identifican las excavaciones realizadas.
En este sentido, la postura que adoptamos implica la aceptación de que la formación de los rellenos arqueológicos y, por ende, la colmatación de las estructuras negativas en cuestión, se encontraba tan controlada y era tan intencionada como podía serlo la propia excavación de dichas estructuras, si bien ello no justifica por sí solo la caracterización de los campos de hoyos como santuarios o lugares exclusivamente rituales, opinión con la que no comulgamos.

12h00
António VALERA . Estruturas negativas em fossa da Pré-história recente: abordagens, conteúdos e interpretações.
Na presente comunicação procurar-se-á discutir alguns dos problemas que actualmente se colocam à abordagem e interpretação das estruturas negativas em fossa na Pré-História Recente. Serão discutidos os problemas da diversidade morfológica e funcional, da “biografia” deste tipo de estruturas, da sua visibilidade / invisibilidade, das suas relações contextuais e interdependências funcionais, das suas implicações ao nível da organização espacial e concepções ideológicas. Simultaneamente, serão evidenciados e debatidos alguns problemas no que respeita às práticas metodológicas em contexto de minimização de impactes.

12h30
Maria Teresa FERREIRA, Maria João NEVES . O estranho mundo dos enterramentos em fossa: abordagem arqueotanatológica e paletnológica de algumas comunidades pré e proto-históricas do Sudoeste da Peninsula Ibérica.
Em virtude da natureza linear e da ampla expressão geográfica do projecto, as acções de minimização de impactes arqueológicos decorrentes do empreendimento de Alqueva, patrocinados pela EDIA, vêm acumulando m volume de dados arqueológicos com um impacto decisivo na compreensão de diversos momentos da Pré e Proto-história alentejanas. Um dos exemplos deste impacto positivo na produção de informação arqueológica reside na identificação e escavação de múltiplos contextos funerários datáveis da Pré-história recente e Proto-história, que surgem em estruturas negativas, regra geral sem expressão topográfica ou arqueológica à superfície e, por isso, indetectáveis sem a realização de trabalhos em profundidade. O acompanhamento arqueológico daquele projecto tem permitido a identificação destes contextos funerários, suprindo a evidente impossibilidade prática de realização de semelhantes áreas de sondagem/decapagem em sede de Arqueologia programada.
A exploração deste registo arqueográfico, que transforma profundamente a compreensão das práticas funerárias daquelas épocas, levanta porém um complexo conjunto de dificuldades (relacionadas com as condições de deposição e práticas funerárias; o controlo dos mecanismos de formação e evolução pós-deposicional dos níveis arqueológicos; e a cronologia relativa, absoluta e diacronia das práticas identificadas) que só podem abordar-se eficazmente a partir da implementação de uma metodologia rigorosa de recuperação do material arqueológico e osteoarqueológico e da informação espacial, estratigráfica e tafonómica associada.
Aplicada à escavação de diveros sítios arqueológicos (Casarão da Mesquita 4, Monte da wsida 3, Torre Velha 3, entre outros) localizados no Alentejo interior, esta metodologia — que exige uma integração da Arqueologia e da Antropologia desde a fase dos trabalhos de campo — permitiu, não somente traçar o perfil biológico dos indivíduos inumados, como também caracterizar as práticas funerárias identificadas, destrinçando-as de processos pós-deposicionais de evolução do registo arqueoestratigráfico em que hoje os seus vestígios surgem inclusos.
Nestas condições de rigoroso controlo tafonómico e compreensão da dinâmica de constituição e evolução pós-deposicional do documento estratigráfico em que estão integrados estes vestígios funerários, as observações efectuadas durante a escavação dos vários sítios permitiram identificar uma importante diversidade de ritos funerários e modalidades de disposição de cadáveres (que incluem a deposição em cista e em fossa de indivíduos de ambos os sexos e de várias classes etárias, sujeitos a diversos tratamentos funerários: deposições primárias, secundárias; simples, múltiplas e colectivas), a interpretar no quadro genérico do estudo das comunidades da Pré-história recente e Proto-história do interior alentejano.

--- almoço ---

14h30
Lídia BAPTISTA, Maria de Lurdes OLIVEIRA . Alguns contextos pré-históricos da região de Beringel e Trigaches (Beja). A problemática de interpretação de estruturas em negativo.
Durante a execução do projecto “Bloco de Rega do Pisão”, pela EDIA, S.A., foram detectadas várias estações arqueológicas de cronologia Pré-Histórica Recente caracterizadas pela presença de estruturas em negativo. A área deste projecto limitou-se, grosso modo, às bacias hidrográficas das ribeiras do Pisão e do Álamo, nas freguesias de Beringel e Trigaches, concelho de Beja.
Esta área localiza-se na peneplanície do Baixo Alentejo, que pertence ao Sistema Aquífero dos Gabros de Beja que corresponde às formações gabro-dioríticas que se estendem entre Ferreira do Alentejo, Beja e Serpa, constituindo terrenos muito férteis, usualmente designados como “Barros de Beja”.
Os trabalhos de escavação foram executados por várias empresas de arqueologia, tendo a Arqueologia & Património realizado, entre Agosto de 2007 e Abril de 2008, intervenções em várias estações.
Os dados de escavação encontram-se em fase de estudo por uma equipa multidisciplinar que contempla, entre outros, investigadores das áreas de antracologia, palinologia, C14, arqueozoologia.
Nesta apresentação iremos debruçar-nos sobre alguns contextos escavados de cronologia Pré-Histórica no sentido de problematizar a interpretação funcionalista, tradicionalmente aplicada.

15h00
Paulo REBELO, Raquel SANTOS, Nuno NETO . Os sítios de fossas de Entre Águas 5 e Corça 2 (Serpa).
Sítio de Entre Águas 5, Serpa
No decurso da identificação de algumas bolsas de materiais atribuíveis à Idade do Bronze durante o acompanhamento arqueológico dos trabalhos de remoção de terras, inseridos na empreitada de construção da barragem de Serpa, procedeu-se à escavação manual dos vestígios numa intervenção que decorreu entre Maio e Junho de 2008.
Após a limpeza inicial de toda a camada superficial, bastante revolvida pelos trabalhos mecânicos, e consequente definição dos contextos observados, identificaram-se três grandes estruturas habitacionais negativas, em forma de “8”, e seis estruturas negativas tipo “fossa”, sobre as quais foram implantadas as sondagens. O conjunto da área revelou assim dois diferentes tipos de ocupação: as wsanas em forma de “8” e um alinhamento de fossas de forma ovalada; associados a um vasto e diversificado espólio material, atribuível à Idade do Bronze final.
Os fundos de wsana são indícios de uma ocupação mais ou menos permanente, que serviriam de base a uma estrutura em materiais perecíveis que se elevaria sobre esta. No entanto, apenas numa destas estruturas foram identificados buracos de poste ao centro. Entre as três wsanas identificadas, destacam-se duas que forneceram espólio em grande quantidade e diversidade. A primeira revelou contextos relativamente bem preservados, registando-se a presença de duas manchas de materiais, com várias cerâmicas fracturadas in situ, surgindo também associada alguma fauna, bem como vários termoclastos, fragmentos de argila cozida e carvões, indícios de estruturas de combustão. Já o fundo de wsana na zona mais a Este da área de intervenção, não permitiu identificar níveis de ocupação, sendo as diferentes camadas interpretadas como de enchimento. No entanto, foi nesta estrutura que se recolheu maior diversidade e quantidade de materiais: para além do grande número e qualidade das cerâmicas (entre estas destacando-se as decoradas com ornatos brunidos), surge espólio lítico, em pedra talhada e polida, bem como um vasto conjunto de fauna, principalmente mamalógica, mas também alguma malacológica. Mas o grande destaque é o dos artefactos ligados à produção metalúrgica: cadinhos para a manufactura de bronze, moldes, algaravizes, restos de escória, para além de alguns objectos, provavelmente em bronze, elementos de adorno como contas de colar e uma pulseira, e ainda um rebite com a wseça em ouro, que certamente faria parte de um artefacto de prestígio. Elementos que comprovam a produção metalúrgica neste local no Bronze final.
O alinhamento de fossas, de morfologia circular ou oval, constitui um contexto funcionalmente distinto dos fundos de wsana e estaria provavelmente ligado ao armazenamento de determinados produtos, presumivelmente relacionados com a agricultura. Entre os artefactos recolhidos destacam-se artefactos de forma quadrangular, para as quais até ao momento não nos foi possível avançar qualquer aproximação funcional, muito embora a sua morfologia levante a hipótese de constituírem uma espécie de suporte. Trata-se de peças de pequenas dimensões (com cerca de 8cm de lado), com quatro superfícies profusamente decoradas por incisão e sem fundo.
Este local veio trazer novos dados para o conhecimento das estratégias de ocupação na Idade do Bronze, nomeadamente no que diz respeito à produção metalúrgica naquela região.

Sítio de Corça 2, Serpa
No sítio de Corça 2 foram identificadas, pela equipa de acompanhamento arqueológico dos trabalhos de construção da barragem da Amoreira (Serpa), algumas estruturas negativas, escavadas no substrato geológico e intervencionadas em duas fases distintas, em Junho e Agosto de 2008.
Na primeira fase, havia sido ainda identificada apenas uma das estruturas existentes. A sua escavação manual colocou a descoberto um enterramento humano de adulto, em posição fetal, no interior de uma estrutura negativa tipo “silo”.
Acompanhado de apenas quatro fragmentos cerâmicos de tipologia não identificável (um deles com decoração de ornatos brunidos), duas lascas e três núcleos de quartzo e um percutor em quartzito, esta inumação humana na posição fetal em decubitus lateral permite, pela sua própria tipologia e com base na identificação do fragmento cerâmico decorado com ornatos brunidos, uma aproximação cronológica à Idade do Bronze final.
Na segunda fase dos trabalhos foram escavadas duas bolsas antrópicas, em cujos enchimentos se recolheu escasso material arqueológico, cuja análise preliminar parece apontar uma cronologia atribuível ao período Neolítico final/Calcolítico inicial.
Os trabalhos de minimização de impactes sobre o património cultural por parte da EDIA S.A., têm permitido colocar a descoberto na região várias realidades que se podem enquadrar dentro do mesmo tipo de contexto intervencionado agora em Corça 2.
Este tipo ocupação é relativamente comum na região, surgindo no Monte da Pita 5 e 6 (Beringel), na Pedreira de Trigaches 2 (Beja), Horta do Albardão 3 (Évora), Monte wsido 3 (Évora). Entre estes destaca-se o Casarão da Mesquita 3 (Évora) onde foram intervencionadas 49 fossas de perfil oval, duas apresentando inumações em decubitus lateral, associadas a espólio típico da Idade do bronze: elementos de foice e cerâmica brunida.
O sítio de Corça 2 integra-se neste tipo de contexto. Fossas de perfil oval escavadas no substrato geológico que, após terem sido usadas numa primeira fase como silos, são entulhadas, sendo por vezes usadas como locais de inumação. Apresentam normalmente um espólio pobre, geralmente integrável entre o III e o II milénio a.C.

15h20
Helena SANTOS . Contextos de fossas no sítio da Magoita (Brinches, Serpa).
No âmbito da Minimização de Impactes sobre o Património Cultural decorrente da execução do Bloco de Rega de Briches foi identificado em fase de obra um conjunto de interfaces enquadráveis na Pré-história no sitio de Magoita (Brinches).
A escavação destas realidades arqueológicas, cerca de 12 estruturas negativas, revelaram dois contextos distintos: um deles tradicionalmente interpretado como uma wsana com materiais enquadráveis em época Calcolítca e um enterramento em fossa da Idade do Bronze.
Para além da apresentação das características formais e da cultura material associada que permitem esta conclusão, pretende-se também discutir em antítese as dificuldades de atribuição funcional e cronológica a algumas daquelas estruturas, situação que neste caso específico corresponde a cerca de 80% das que foram intervencionadas.No âmbito da Minimização de Impactes sobre o Património Cultural decorrente da execução do Bloco de Rega de Briches foi identificado em fase de obra um conjunto de interfaces enquadráveis na Pré-história no sitio de Magoita (Brinches).
A escavação destas realidades arqueológicas, cerca de 12 estruturas negativas, revelaram dois contextos distintos: um deles tradicionalmente interpretado como uma wsana com materiais enquadráveis em época Calcolítca e um enterramento em fossa da Idade do Bronze.
Para além da apresentação das características formais e da cultura material associada que permitem esta conclusão, pretende-se também discutir em antítese as dificuldades de atribuição funcional e cronológica a algumas daquelas estruturas, situação que neste caso específico corresponde a cerca de 80% das que foram intervencionadas.

15h40
Maria João NEVES, Maria Teresa FERREIRA, Elena Morán, Ana Maria SILVA . Vestígios ósseos humanos no povoado de Alcalar - análise arqueotanológica de um contexto funerário em fossa.
No decurso da última campanha de escavações arqueológicas no povoado de Alcalar, dirigidas por Elena Moran, foram descobertos no seio de uma estrutura negativa diversos vestígios osteológicos humanos.
Estes vestígios, recuperados de acordo com os princípios metodológicos da Antropologia de Terreno, foram depois analisados em laboratório com vista à caracterização paleobiológica dos indivíduos e ao estudo arqueotanatológico dos fragmentos ósseos recuperados.
Partindo de um conjunto de fragmentos ósseos desarticulados, tendo por base o recenseamento das peças osteológicas presentes, a aferição do NMI, a identificação de ligações osteológicas de segunda ordem e a análise da distribuição espacial dos fragmentos ósseos, foi possível, em parte reconstituir o ambiente funerário original em que, pelo menos, dois indivíduos terão sido depositados. A obtenção de uma data absoluta para este conjunto permitiu aferir a cronologia docontexto funerário, traçando com maior acuidade a diacronia de ocupação do povoado de Alcalar.
A especificidade deste contexto será explorada nesta comunicação, procurando-se de igual modo comparar os dados obtidos com outros de sítios coevos do sudoeste ibérico, de molde a caracterizar a relação entre o mundo dos mortos e o dos vivos.

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16h20
Marta DÍAZ-ZORITA BONILLA . Análisis de los restos osteoarqueológicos documentados en estructuras negativas en el poblado calcolítico de Valencina de la Concepción, Sevilha (España).
El poblado de la Edad del Cobre de Valencina de la Concepción, Sevilla (España) comprende una colección antropológica muy numerosa y alberga diferentes tipos de estructuras funerarias y rituales de enterramiento. Algunas de las estructuras donde se han localizado los restos óseos, presentan cierta problemática a la hora de interpretar el registro arqueológico, debido a sus diferentes funcionalidades. Estas estructuras denominadas como negativas de morfología generalmente circular se encuentran excavadas en la roca, y presentan diversos registros arqueológicos dentro de los diferentes ámbitos del poblado. La ausencia de proyectos de investigación sistemáticos y el carácter de urgencia de la mayoría de las excavaciones arqueológicas realizadas hasta la fecha, es el principal problema al que se enfrentan este tipo de sitios aún indefinidos desde el punto de vista funcional. Este estudio analiza desde el punto de vista osteoarqueológico los restos óseos humanos documentados en varias de estas estructuras localizadas en el poblado de Valencina. Los resultados del análisis osteológico observan ciertos problemas tafonómicos, y evidencian los diferentes usos de estos tipos de estructuras. Los valores demográficos deben ser tomados con cautela y necesitan ser comparados con otros sitios del mismo contexto cronológico para realizar una aproximación demográfica a la Edad del Cobre. Es necesario realizar análisis de los restos bioarqueológicos localizados en estos contextos combinados con dataciones radiocarbónicas. De esta manera, se pueden obtener los datos necesarios para encuadrar cronológicamente el periodo de uso de estos sitios. Es urgente la reinterpretación de estas estructuras negativas, en combinación con la observación de los factores expresados anteriormente, para la correcta lectura de los registros arqueológicos prehistóricos, entre los cuales se encuentra el yacimiento de Valencina de la Concepción. No obstante, la sistematización de los estudios de antropología física, así como de zooarqueología proporcionará datos cruciales sobre el comportamiento humano y animal y los procesos rituales en la Prehistoria Reciente europea.

16h40
Lúcia MIGUEL, Ricardo GODINHO . Enterramentos em Fossa no Monte das Covas (São Matias, Beja).
A intervenção no Monte das Covas 3 permitiu a escavação de duas estruturas negativas com vestígios funerários preservados. Na sondagem 3 foi escavado um hipogeu com uma câmara que continha vestígios osteológicos de um número mínimo de dois indivíduos (um sub-adulto e um adulto). Estes não apresentavam qualquer conexão anatómica e encontravam-se dispersos no depósito de enchimento. Na sondagem 7 foi escavada uma fossa que continha um número mínimo de 16 indivíduos. Apenas um destes não apresentava qualquer perturbação. Os restantes apresentavam perturbações pós deposicionais que resultaram na presença de ossos sem conexão anatómica e em partes de esqueleto em conexão. No total foram registadas cerca de 40 conexões anatómicas, devendo estas corresponder, certamente, a um número inferior de indivíduos.
A estas acresce uma fossa na qual se observou a presença de fragmentos de ossos longos pigmentados com ocre. O seu pobre estado de preservação não permite afirmar peremptoriamente que se trata de ossos humanos, contudo é um contexto claramente ritual.
Foi intervencionada, além das fossas com os enterramentos, mais uma fossa de forma circular de perfil “em saco”, da qual não foram recolhidos nem materiais arqueológicos, nem dados que permitissem a caracterização da sua funcionalidade.
Além destas foi ainda registado um conjunto de estruturas negativas, pouco profundas, de formas variadas sem materiais arqueológicos e interligadas entre si do qual não foi possível confirmar a sua natureza antrópica.

17h00
Marta Furtado, Maria Teresa Ferreira, Maria João Neves . Contextos funerários do sítio da Torre Velha 3 (Serpa): apresentação preliminar dos dados da Arqueotanatologia.
Na sequência de trabalhos de minimização de impactes no sítio arqueológico da Torre Velha 3 (Barragem da Laje, Serpa) no âmbito do projecto hidrográfico da bacia do Alqueva, da responsabilidade da Palimpsesto, Estudo e preservação do Património Cultural, Lda. foram encontrados vestígios osteológicos humanos de períodos histórico e pré-histórico.
Estes vestígios osteoarqueológicos surgiam no quadro de um sítio arqueológico dominado pela presença de um grande número de estruturas negativas preliminarmente atribuíveis à Idade do Bronze e Época tardo-romana, em cujos preenchimentos os vestígios osteoarqueológicos estavam incluídos.
Com efeito, muitas das estruturas negativas pré e proto-históricos da Torre Velha 3 continham indivíduos inumados, registando-se também uma diversidade muito significativa de rituais funerários, desde logo no que respeita à própria morfologia da sepultura enterramentos em fossa, em nicho, e sepulturas em câmara com ante-câmara.
Com recurso a uma metodologia baseada na Arqueotanatologia e especificamente adaptada aos contextos de Arqueologia de salvamento, a equipa de Antropologia Styx/Dryas recuperou os restos ósseos de um número mínimo de 75 indivíduos, de ambos os sexos e das várias faixas etárias.
A vasta maioria das sepulturas era individual, tendo porém algumas sido reutilizadas (de forma apenas ocasional) e registando-se raros casos de inumações duplas. Os 75 indivíduos recuperados em conexão anatómica encontravam-se geralmente em decúbito lateral, com os membros inferiores flectidos, lembrando a posição fetal.
Faz-se uma apresentação preliminar dos dados arqueotanatológicos recolhidos durante a intervenção de Antropologia de campo, nomeadamente no que concerne ao tipo de estrutura funerária, tipo de deposição, número de indivíduos por estrutura, perfil biológico, e processo de decomposição.

17h20
Intervenção dos relatores científicos
> Rui Parreira . (Direcção Regional de Cultura do Algarve)
> Ana Maria Silva . (Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra)
> Miguel Almeida . (Dryas Arqueologia)

18h00
Discussão.

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