iDRYAS INVESTIGAÇÃO

5º Curso de Antropologia Biológica (2010)

Arqueotanatologia em contexto de salvamento


  • Museu D. Diogo de Sousa (Braga)
  • 23 e 24 de Abril de 2010
  • (16 horas lectivas)

coordenação científica:

  • Maria Teresa FERREIRA, Maria João NEVES, Eugénica CUNHA

organização

  • Dryas Octopetala
  • Universidade de Coimbra / Dep. Ciências da Vida

apoios:

  • Universidade do Minho / Inst. Estudos Sociais - Dep. História
  • Museu D. Diogo de Sousa
  • Finibanco, SA.
objectivos

O CAB – Curso de Antropologia Biológica iniciou-se em 2006, com o objectivo assumido de contribuir para uma melhor integração metodológica dos profissionais de Arqueologia e de Antropologia no quadro de intervenções arqueológicas implicando a recuperação de vestígios osteológicos humanos.

Com efeito, se então estava já instituída na prática a necessidade de inclusão de especialistas de Bioantropologia nas equipas de terreno — imposta pelo Regulamento de trabalhos arqueológicos, publicado em 1999 —, parecia urgente ultrapassar uma situação objectiva de insuficiente interpenetração de práticas e conceitos metodológicos oriundos dos campos da Arqueologia e da Bioantropologia. Esta interdisciplinaridade insuficiente resultava muitas vezes em intervenções nas quais a colaboração efectiva das duas disciplinas se resumia a uma complementaridade de actividades de recuperação dos dois tipos de vestígios (arqueológicos e osteoarqueológicos), sem integração metodológica dos dois campos, nem efectiva colaboração, fosse em fase de orientação estratégica das intervenções, fosse em fase de interpretação. De resto, tais intervenções produziam frequentemente relatórios técnicos independentes, surgindo os trabalhos de Antropologia na maioria das vezes como puramente instrumentais e acessórios da intervenção de Arqueologia. Este facto, que aliás reflectia bem o papel entregue/assumido pelos antropólogos no campo, condicionava fortemente o sucesso da escavação, documentação e interpretação dos contextos arqueológicos sepulcrais, ou outros com vestígios osteoarqueológicos.

Neste quadro geral, a Dryas e o Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra sentiram que a criação de um curso orientado para a divulgação dos princípios metodológicos da Arqueotanatologia, fundada em França, e da experiência de aplicação específica deste corpus metodológico à Arqueologia de salvamento, que vinha sendo desenvolvida pela Dryas, em colaboração com o Departamento de Antropologia, constituiria um contributo positivo para a qualificação das intervenções neste sector.

O acolhimento das primeiras edições do CAB, com participantes dos campos da Arqueologia, Antropologia e Medicina, confirmaria que o curso vinha de facto responder a uma necessidade sentida tanto por profissionais experientes, como por jovens estudantes. O curso assumir-se-ia assim, desde a sua primeira hora, como um espaço de profundo intercâmbio interdisciplinar, também com reflexo positivo na investigação operacional aplicada em curso.

Tal receptividade motivaria por outro lado uma inflexão na organização do curso: realizado sempre em Coimbra durante os três primeiros anos, optámos por propor o CAB noutros locais. Assim, em 2009, realizou-se já a 4ª edição do CAB em Lisboa, com o apoio do Museu Nacional de Arqueologia, para além de uma versão mais compacta do curso leccionada no Brasil, em Belém do Pará, por ocasião do último Congresso da Sociedade Arqueológica Brasileira.

É na sequência desta opção de itinerância que a Dryas / Octopetala e o Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra organizam a quinta edição do Curso de Antropologia Biológica, desta vez directamente subordinado ao tema “Arqueotanatologia em contexto de salvamento” e com o apoio do Departamento de História do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho e o Museu D. Diogo de Sousa, de Braga.

coordenação científica
  • Maria Teresa FERREIRA, Maria João NEVES, Eugénia CUNHA
formadores
  • Miguel ALMEIDA . Dryas Octopetala / iDryas
  • Eugénia CUNHA . Departamento de Ciências da Vida / FCTUC
  • Maria Teresa FERREIRA . Dryas Octopetala / iDryas . Departamento de Ciências da Vida FCTUC
  • Maria João NEVES . Dryas Octopetala / iDryas . Departamento de Ciências da Vida FCTUC
  • João PINHEIRO . Instituto Nacional de Medicina Legal
  • Ana Maria SILVA . Departamento de Ciências da Vida FCTUC
  • Sofia WASTERLAIN . Departamento de Ciências da Vida FCTUC
destinatários

Estudantes e profissionais de Arqueologia, Antropologia e outras Arqueociências.

organização
  • Dryas Octopetala
  • Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
apoios
  • Departamento de História do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho
  • Museu D. Diogo de Sousa (Braga)
  • Finibanco, SA.
contactos
  • t.: 239 834 157, 913 479 905
  • e.: cursos@dryas-arqueologia.pt
Dia 1 . Sexta-feira, 24 de Abril de 2010

09h00-09h15
Entrega de documentação

09h15-09h30
Abertura e apresentação do curso

09h30-10h00
Miguel ALMEIDA . A recuperação do registo osteoarqueológico em contexto de salvamento: potencial científico vs. Condicionamentos metodológicos

10h00-11h00
Eugénia CUNHA . Conhecer os nossos antepassados através do esqueleto

--- 11h00-11h30 . Pausa ---

11h30-13h00
Miguel ALMEIDA . O contexto geoarqueológico

--- 13h00-14h30 . Pausa para Almoço ---

14h30-16h00
João PINHEIRO . Processos de decomposição

--- 16h00-16h30 . Pausa ---

16h30-18h00
Maria Teresa FERREIRA . Tafonomia e Arqueotanatologia

18h00-19h00
Maria João NEVES . Abordagem interdisciplinar do registo osteoarqueológico: metodologia de exploração

Dia 2 . Sábado, 28 de Março de 2009

09h00-13h00
Miguel ALMEIDA, Maria Teresa FERREIRA, Maria João NEVES, Ana Maria SILVA . Abordagem interdisciplinar do registo osteoarqueológico: Arqueotanatologia e Arqueologia da Morte (aula Prática)

--- 13h00-14h30 . Pausa para Almoço ---

14h30-15h30
Ana Maria SILVA . A abordagem paleodemográfica

15h30-16h30
Sofia WASTERLAIN . O que as ‘bocas’ nos dizem do passado: a importância da análise dentárias nos estudos paleoantropológicos

--- 16h30-17h00 . Pausa ---

17h00-18h30
Miguel ALMEIDA, Maria Teresa FERREIRA, Maria João NEVES, Sofia WASTERLAIN, Ana Maria SILVA . Parque do Anel Verde’09 / Vale da Gafaria (Lagos): condicionantes, resultados científicos e potencial social de uma intervenção de Arqueologia de salvamento

18h30-19h00
Debate, conclusões e encerramento do curso

Dia 1 . Sexta-feira, 27 de Março de 2009

09h30-10h00
Miguel ALMEIDA . A recuperação do registo osteoarqueológico em contexto de salvamento: potencial científico vs. Condicionamentos metodológicos
Os princípios teóricos e metodológicos fundamentais da actual “Arqueotanatologia” foram desenvolvidos desde o início da década de 1980, maioritariamente graças ao impulso dos trabalhos de Henry Duday e da sua equipa do Laboratório de Antropologia de Bordéus, fundadores da “Anthropologie de terrain”.
O que este desenvolvimento metodológico introduziu foi uma atenção muito rigorosa à recuperação detalhada não apenas dos vestígios osteológicos humanos, mas também da totalidade da informação contextual que lhes está associada no registo arqueológico.
Duas premissas de base justificavam esta nova proposta metodológica:
1º. Que aqueles vestígios e informação comportam um enorme potencial informativo sobre os mais diversos aspectos das sociedades passadas em que se integraram os indivíduos em questão; e
2º. Que a exploração eficaz deste manancial de informação é incompatível com a restrição das responsabilidades do antropólogo ao estudo laboratorial dos ossos, visto que uma parte decisiva da recuperação da informação se opera (e muitas vezes se perde!) na fase dos trabalhos de terreno.
Nestes termos, a “Anthropologie de terrain”, hoje Arqueotanatologia, introduz a necessidade de uma efectiva interdisciplinaridade nas intervenções sobre sítios arqueológicos com vestígios osteológicos humanos.
Do ponto de vista do saldo científico, a adopção do paradigma arqueotanatológico resulta num incremento muito significativo da contribuição efectiva dos vestígios osteoarqueológicos para a compreensão dos fenómenos sociais do passado, mas implica a aceitação de um conjunto de procedimentos, desde logo em fase de terreno, que são condições indispensáveis de aplicação do método e que representam um impacto importante em termos de volume de trabalhos a realizar no campo. Este impacto acrescido de tarefas de campo tem justificado muitas vezes a opção por estratégias mais expeditas de recolha dos vestígios osteoarqueológicos. Sempre com perdas irrecuperáveis de informação.
É neste âmbito que a equipa Dryas vem desenvolvendo desde há vários anos uma actividade de investigação operacional que visa a criação de procedimentos específicos de aplicação dos métodos da Arqueotanatologia também em contextos de Arqueologia de salvamento, nos quais o factor “duração da intervenção de campo” constitui efectivamente uma condicionante muito importante das opções estratégicas das equipas de Arqueologia.
A nossa experiência demonstra que esta aplicação da Arqueotanatologia em contexto de salvamento é perfeitamente viável, não parecendo por isso admissível a realização de intervenções de terreno com métodos menos eficazes na recuperação da informação e vestígios osteoarqueológicos sob pretexto da urgência dos trabalhos de salvamento.

10h00-11h00
Eugénia CUNHA . Conhecer os nossos antepassados através do esqueleto
Os ossos humanos são uma fonte incontornável e insubstituível de informação para várias ciências, como a antropologia, a biologia, a medicina, a arqueologia e a história. Como parte do corpo humano, têm obrigatoriamente que ser lidos de um modo holístico e integrado o que implica conhecer o tecido ósseo, numa perspectiva fisiológica, histológica e genética, e entender os processos de decomposição dos tecidos moles. Não é, assim, possível interpretar um osso seco sem conhecer como foi esse osso enquanto vivo. Outro aspecto essencial para uma leitura correcta dos ossos é ter noção e experiência da variabilidade humana, designadamente, para uma exacta discriminação entre variantes morfológicas e patológicas.
Por outro lado, o contexto onde os vestígios humanos são encontrados é da maior importância para outra atribuição chave dos antropólogos, explicar porque é que determinados restos humanos estão no estado de preservação com que foram detectados e não num outro. A interpretação do estado de conservação implica, então, e obrigatoriamente, o contributo de outras ciências, o que torna o estudo dos ossos uma tarefa multidisciplinar.
São apresentados casos práticos ilustrativos quer da relevância do conhecimento do ossos enquanto tecido vivo, quer da transdisciplinaridade em antropologia biológica. Simultaneamente os casos reportados elucidam sobre o contributo da descodificação dos ossos para as várias ciências referidas.

11h30-13h00
Miguel ALMEIDA . O contexto geoarqueológico
Ultrapassado (dificilmente) o paradigma positivista, a interpretação do registo arqueográfico progrediu numa crescente necessidade de controlo dos processos de constituição e evolução pós-deposicional dos níveis arqueoestratigráficos.
Esta necessidade — nascida do desenvolvimento fundamental da Arqueologia pré-histórica no sentido da imposição de um novo paradigma, dito Paletnológico — alastra-se gradualmente aos períodos mais recentes, estabelecendo o imperativo metodológico de uma minuciosa e prévia crítica das fontes, no caso da Arqueologia identificadas com os próprios documentos estratigráficos.
Como consequência, a Tafonomia assume um papel essencial no processo de interpretação do registo arqueográfico. Com efeito, sob o impulso pioneiro de Bar-Yosef e Isaac, os princípios da BIOtafonomia, criada por Efremov como corpus científico interessado pelo estudo dos processos sin e pós-deposicionais observados em organismos biológicos, foram aplicados por analogia à evolução dos corpos estratigráficos desde o momento da sua deposição inicial, criando assim as bases fundamentais do que hoje se constitui como a GEOtafonomia, domínio fundamental de qualquer inquérito arqueológico, frequentemente enquadrada no âmbito da Geoarqueologia.
Sendo a Biotafonomia um dos vectores fundamentais deste curso, nesta aula preliminar abordaremos (quase) exclusivamente questões de Geotafonomia e mais particularmente os processos tafonómicos que afectam (a diferentes escalas: dos próprios vestígios osteológicos, enquanto elementos estratigráficos; da sepultura; da necrópole) o registo osteoarqueológico.
O objectivo da aula consiste em descrever os princípios básicos e metodológicos da contextualização arqueoestratigráfica do registo osteoarqueológico, factor prévio, mas decisivo da eficácia da interpretação subsequente deste tipo registo.

14h30-16h00
João PINHEIRO . Processos de decomposição
Nem sempre um cadáver é sujeito aos rituais fúnebres e respectivo enterramento ou cremação. Em casos de crimes, mortes súbitas e/ou sem assistência médica em que os corpos não foram recuperados num período de tempo curto, este entra em decomposição. Um palavrão institucionalizado mas que quer dizer muitas coisas. Desde logo porque nessa decomposição se incluem muitas vezes, e mal, processos que são mais de conservação que de decomposição. Referimo-nos à adipocera e mumificação, este último praticado artificialmente, desde tempos ancestrais, para a conservação dos corpos. Mas a verdadeira decomposição inclui, com muito mais propriedade, a putrefacção e, se esta seguir o seu curso normal, a esqueletização até à fossilização.
É destes estados e processos que nos ocuparemos nesta sessão. Porque arqueólogos, antropólogos e patologistas forenses podem encontrar, na sua pratica diária, com menor ou maior frequência dependendo da respectiva especialização, corpos não frescos - é este o termo técnico - em diferentes estados de decomposição/preservação, que é preciso estudar, analisar, dissecar.
Debateremos estes diversos estados da decomposição cadavérica, caracterizando-os de um ponto de vista prático, muito mais que do da subcategorização precisa em fases muito bem estabelecidas, contudo de grande variabilidade e a carecer de comprovação experimental, realçando as suas virtualidades e potencialidades em termos não só científicos, mas também forenses.
Se um cadáver estiver podre - termo técnico – valerá a pena esforçarmo-nos se, como é comum ouvir-se, a putrefacção é o maior inimigo do patologista? É certo que a putrefacção dificulta o trabalho do patologista, mas há ainda muitos diagnósticos que poderão ser estabelecidos, até os menos espectáveis como por exemplo, de doenças naturais. É verdade que a saponificação transforma o corpo numa massa cerosa de cor esbranquiçada, que confundirá as cores próprias e a disposição dos órgãos? Sim, mas pode, apesar disso, permitir seguir trajectos de bala ou de arma branca, com assinalável sucesso. E um corpo mumificado, que já quase não contém órgãos, que tipo de informação poderá proporcionar? Mais do que o que se possa pensar à primeira vista. Pode permitir uma identificação, uma vez que conserva a fisionomia melhor que qualquer outro processo. Será por outro lado que a esqueletização em climas temperados como o nosso ocorre, como se lê na literatura, entre os 12 e 18 meses após a morte? Sabemos por experiencia própria que pode verificar-se tão só em 15 dias a 3 semanas na nossa região, mesmo fora do Verão.
Tudo isto e muito mais, dentro de momentos, na conversa que se segue.

16h30-18h00
Maria Teresa FERREIRA . Tafonomia e Arqueotanatologia
O fundamental do corpo conceptual que sustenta metodologicamente os trabalhos de Antropologia de terreno constitui-se, em França, sobretudo a partir de princípios de 1980. Desde então, esta área tem-se consolidado, sendo um dos principais eixos de pesquisa no domínio dos estudos antropológicos de necrópoles.
A Antropologia de terreno, actualmente designada de Arqueotanatologia, implica uma abordagem holística e dinâmica cujo objectivo é o de compreender as circunstâncias dos enterramentos através da reconstrução dos acontecimentos post mortem e dos processos tafonómicos ocorridos desde o momento da deposição do cadáver até à sua recuperação.
Os objectivos e métodos desta disciplina são independentes da cronologia dos restos ósseos e das práticas funerárias, tornando os procedimentos preconizados pela Arqueotanatologia fundamentais na recuperação de vestígios osteológicos humanos.
No âmbito da Arqueologia, a Arqueotanatologia permite assim uma compreensão global das práticas funerárias e do funcionamento sincrónico e diacrónico dos espaços sepulcrais imprescindível sempre que estamos na presença de ossos humanos, permitindo não só aceder aos quadros mentais das populações do passado como possibilitando também uma análise ulterior mais detalhada dos aspectos paleobiológicos das populações do passado.
Recorrendo a exemplos empíricos, apresentaremos de forma sistemática algumas das alterações a que primeiro os cadáveres e depois os esqueletos estão sujeitos uma vez enterrados, salientando a importância de tais alterações para a compreensão da evolução pós-deposicional de contextos mortuários e funerários.

18h00-19h00
Maria João NEVES . Abordagem interdisciplinar do registo osteoarqueológico: metodologia de exploração
O potencial informativo do registo osteoarqueológico vem sendo crescentemente afirmado nas últimas décadas através do desenvolvimento contínuo de novos métodos de terreno que produzem conjuntos de dados e observações mais rigorosos, permitindo por isso maiores ambições e acuidade na fase de tratamento laboratorial e interpretação dos dados relativos à vida e morte dos indivíduos estudados.
Em Portugal, a inclusão obrigatória de antropólogos nas equipas de escavação de necrópoles encontra-se consignada no Regulamento dos Trabalhos Arqueológicos em vigor, publicado em 1999. No entanto, e volvida mais de uma década, não existe ainda qualquer prescrição legal que regulamente especificamente os trabalhos da Antropologia de campo, ao contrário do que acontece para os restante trabalhos arqueológicos, em que as diversas etapas de trabalho se encontram descritas e regulamentadas na legislação vigente — desde a autorização para a sua realização até à documentação a apresentar em sede de relatório.
Esta lacuna legal permite a aplicação de uma multiplicidade de procedimentos de escavação, recuperação e tratamento do material ósseo demasiado díspares, que se traduzem demasiado frequentemente em perdas irrecuperáveis da informação relativa às práticas funerárias, processos tafonómicos e de formação de sítio, impossibilitando a posterior correcta interpretação dos conjuntos sepulcrais e a sua análise paleobiológica.
Esta situação, adquire por vezes contornos alarmantes em contextos de emergência e prevenção, nos quais muitas vezes as equipas de engenharia e de direcção de obra impõem ritmos incompatíveis com os trabalhos de Antropologia de campo. Que fazer?
Neste quadro, temos vindo a propor a implementação sitemática de um programa metodológico que respeite o protocolo de escavação e recuperação do material osteológico preconizado pela Arqueotanatologia e que tenha como princípios fundamentais: a planificação prévia dos trabalhos; a pluridisciplinariedade (a tempo integral) e qualificação específica das equipas de campo; a concepção global do sítio como unidade digna de atenção multidisciplinar; e a completa recuperação dos vestígios, assim como de toda a informação de campo.
Este procedimento constitui condição sine qua non de uma crítica rigorosa dos processos tafonómicos que afectaram o cadáver e o esqueleto após a inumação, ponto de partida indispensável para uma reconstituição fundamentada das práticas funerárias e contextos societários da inumação.

Dia 2 . Sábado, 24 de Abril de 2010

09h00-13h00
Miguel ALMEIDA, Maria Teresa FERREIRA, Maria João NEVES, Ana Maria SILVA . Abordagem interdisciplinar do registo osteoarqueológico: Arqueotanatologia e Arqueologia da Morte (aula Prática)
A escavação de necrópoles pressupõe uma colaboração próxima entre arqueólogos e antropólogos, responsáveis pela co-direcção técnico-científica deste tipo de intervenções. Porém, e apesar desta colaboração produzir em Portugal alguns exemplos bem sucedidos, subsistem dificuldades na compreensão e articulação de procedimentos metodológicos de trabalho, sobretudo durante as intervenções de campo.
Esta aula visa promover a colaboração efectiva em momentos estratégicos da realização directa de observações de campo, da tomada de decisões em conjunto e da interpretação dos resultados obtidos durante os trabalhos de campo. Para tanto, importa familiarizar cada um dos campos desta colaboração inter-disciplinar (arqueólogos e antropólogos) com métodos, objectivos específicos e discursos da “outra parte”, com os quais nem sempre têm um contacto muito directo, a fim de desenvolver uma partilha de informações e de responsabilidades eficaz.
Neste sentido, esta aula prática centrar-se-à na manípulação directa de conjuntos esqueléticos e na interpretação dos seus contextos arqueo-estratigráficos. Através da solução de casos práticos em grupos pluridisciplinares de problemas relativos à interpretação de conjuntos ósseos integrados no seu contexto arqueo-estratigráfico, faz-se uma simulação de situações de campo com as quais nos deparamos diariamente e cuja resolução eficaz não se consegue sem a participação de equipas transdisciplinares capazes de abordar e interpretar de forma integrada os distintos problemas do registo arqueológico dos contextos com vestígios osteológicos humanos.

14h30-15h30
Ana Maria SILVA . A abordagem paleodemográfica
Os restos ósseos humanos constituem uma fonte extremamente valiosa na obtenção de dados dos indivíduos a que pertenceram e, consequentemente, obter inferências sobre as populações do passado. Os parâmetros demográficos, como a estimativa do número mínimo de indivíduos, da idade à morte e da diagnose sexual constituem informações biológicas básicas e imprescindíveis na análise e interpretação subsequentes de vestígios ósseos humanos. Aspectos como a antropologia funerária, a estrutura etária, a mortalidade, a fertilidade, as análises morfométricas e patológicas, podem ser influenciadas por diagnósticos demográficos errados. Será também realçado a distinção entre os conceitos de género e sexo, dado que em contextos funerários particulares, podem ser bastante distintos e levar a interpretações erradas.
Nesta aula, mais do que uma apresentação exaustiva dos métodos existentes para estimar estes parâmetros demográficos, será dado ênfase, aos cuidados a ter durante a escavação de restos ósseos humanos adultos e não adultos, em particular às áreas anatómicas mais relevantes, de modo a maximizar a obtenção destas informações biológicas básicas e deste modo aumentar as potencialidades do subsequente estudo antropológico.

15h30-16h30
Sofia WASTERLAIN . O que as ‘bocas’ nos dizem do passado: a importância da análise dentárias nos estudos paleoantropológicos
Os dentes são uma das provas físicas mais duradouras da existência de um indivíduo após a sua morte. O elevado grau de mineralização dos tecidos dentários torna os dentes mais duros e, consequentemente, mais duradouros e resistentes a alterações do que os ossos, permanecendo frequentemente bem preservados mesmo em condições de enterramento pouco favoráveis e, por vezes, até em cremações. Além disso, fornecem um registo permanente de todas as alterações que ocorram durante ou após o seu desenvolvimento, já que, uma vez formados, não sofrem remodelação.
As doenças dentárias estão entre as condições mais comummente observadas em colecções arqueológicas de restos humanos. Quase todos os adultos e muitas crianças sofrem de patologias que afectam os dentes e tecidos envolventes. Muito importante é o facto dos estudos destas patologias poderem fornecer informações úteis acerca do conteúdo, textura e preparação da dieta assim como da higiene oral das populações pretéritas, dados que, por sua vez, podem permitir inferir a posição social de alguns indivíduos relativamente a outros ou suspeitar de eventuais diferenças sexuais que possam ter existido ao nível da alimentação e do trabalho dentro de uma determinada população.
Nesta apresentação, pretende-se destacar algumas das mais comuns condições dentárias, nomeadamente a cárie dentária, o desgaste dentário e a perda dentária ante mortem, e discutir o modo como as suas prevalências e distribuições nos podem informar acerca de factores comportamentais, sociais e económicos das populações do passado.

17h00-18h30
Miguel ALMEIDA, Maria Teresa FERREIRA, Maria João NEVES, Sofia WASTERLAIN, Ana Maria SILVA . Parque do Anel Verde’09 / Vale da Gafaria (Lagos): condicionantes, resultados científicos e potencial social de uma intervenção de Arqueologia de salvamento
A construção de um estacionamento no "Valle da Gafaria" constituíu uma oportunidade inestimável de documentação objectiva da História moderna de Lagos e de Portugal. Concretizar esta oportunidade, porém, impunha uma intervenção multidisciplinar (de Arqueologia, Geomorfologia e Arqueotanatologia), a fim de garantir a recuperação integrada da informação histórica conservada no sítio.
Foram princípios fundamentais, estratégia e métodos desta intervenção:
- a compreensão dos processos de formação e evolução pós-deposicional das unidades geoarqueológicas reconhecidas no campo;
- o controlo estratigráfico rigoroso dos vários níveis arqueológicos;
- a recuperação de conjuntos artefactuais representativos das sucessivas ocupações documentadas no local;
- a recuperação integral da informação espacial, estratigráfica e contextual relativa às estruturas edificadas;
- a recuperação integral dos vestígios osteoarqueológicos e informação associada.
Resultou um vasto acervo documental associado a conjuntos artefactuais relevantes para:
- a compreensão da estrutura da paisagem local e sua evolução geomorfológica recente;
- a caracterização de dois fornos cerâmicos anteriores às primeiras ocupações referidas nos documentos históricos conhecidos;
- a caracterização tecnológica e contextualização arqueoestratigráfica dos edifícios ditos da Gafaria, representados na cartografia moderna de Lagos, incluída a compreensão dos condicionamentos geomorfológicos, opções de implantação, evolução e obras de manutenção no edifício principal e a sua relação com outras construções no local;
- a compreensão dos processos de constituição da vasta lixeira moderna existente no local, bem assim como do impacto sobre a paisagem do seu crescimento;
- a caracterização arqueotanatológica, bioantropológica e paleopatológica tanto dos doentes de lepra inumados na necrópole da Gafaria, como dos escravos negros enterrados mais tarde na lixeira, a fim de compreender detalhadamente o seu estatuto social e condições específicas de inumação, buscando elementos sobre a origem geográfica dos escravos em caracteres biomorfométricos e marcadores culturais no esqueleto.
Assim, o potencial científico do sítio toca problemáticas muito diversas:
- a evolução geológica e geomorfológica da região;
- a evolução urbana e peri-urbana da cidade;
- o impacto antrópico sobre a paisagem;
- a história da Engenharia portuguesa;
- a estruturação da sociedade moderna portuguesa e seu tecido social;
- a história da escravatura e da expansão portuguesa; e
- a história da lepra, do resposta social à enfermidade e da Medicina em Portugal.
A exploração destes temas exige ainda o alargamento do âmbito disciplinar do projecto do Vale da Gafaria de Lagos, entre outras, nas áreas da Tipo-tecnologia, Arqueozoologia, Antropologia social, Arqueometria e História.
Por fim, face à actualidade de muitos destes temas, ao potencial científico da intervenção soma-se um relevo social importante. A qualidade da investigação e o impacto da divulgação pública a realizar constituirão por isso os critérios de avaliação da intervenção realizada no Vale da Gafaria.

A edição do CAB em 2010 realizou-se em Braga, graças a uma colaboração com o Museu D. Diogo de Sousa e com a Unidade de Arqueologia do Departamento de História da Universidade do Minho, para além do apoio recorrente que este curso vem recebendo da parte do Finibanco, SA.
Como em anos anteriores, o curso foi orientado para a promoção do trabalho interdisciplinar entre os diversos ramos da Antropologia biológica e da Arqueologia. Esta proposta mereceu um vasto interesse do público que, na verdade, nos obrigou a recusar muitas inscrições por motivos objectivos de execuibilidade de um curso em que a vertente prática e o contacto directo com os formadores são marcas determinantes.
Mas esta edição número 5 (ou talvez "cinco e meio", se contarmos a realização em 2009 de um mini-CAB no congresso da Sociedade Arqueológica Brasileira, em Belém do Pará) também constitui um momento determinante de viragem da história do curso. Com efeito, o lançamento do CAB resultou directamente da ambição de divulgar entre a comunidade profissional e académica os resultados de um programa de investigação operacional acerca dos métodos de recuperação dos vestígios osteoarqueológicos e informação associada. Este programa de investigação, desenvolvido desde há anos pela Dryas, em colaboração com o Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra e com a Styx - Estudos de Antropologia, considera-se hoje realizado, tendo produzido um conjunto de procedimentos baseados nos princípios fundamentais da Arqueotanatologia que constituem um método eficaz de recuperação daquele tipo de vestígios, particularmente adaptado aos trabalhos sempre complicados em contexto de Arqueologia de salvamento.
Porém, na medida em que a investigação científica consiste mais em colocar novas questões do que apenas em responder às anteriores, os resultados deste programa operacional abrem de imediato novas perspectivas de trabalho, que justificam hoje a continuação daquele programa original por novas linhas de investigação.
Em consequência, o "CAB - Curso de Antropologia Biólogica" terá provavelmente conhecido em Braga a sua última edição, para dar lugar a partir de 2011 a um... "CAB - Curso de Arqueotanatologia e Bioarqueologia", expressamente centrado sobre os temas fundamentais que progressivamente constituiram a estrutura do programa de investigação e, por consequência, do CAB: as questões do método arqueotanatológico e da interpretação dos sítios com vestígios osteoarqueológicos.
Simultaneamente, o desenvolvimento do método de trabalho cujos conteúdos resultam do programa original de investigação operacional exige agora um muito maior investimento tecnológico, nomeadamente em recursos de Geomática, cuja integração também depende da actividade continuada de investigação aplicada.
Eis os novos desafios e, portanto, também os conteúdos fulcrais do renovado CAB - Curso de Arqueotanatologia e Bioarqueologia: Tanatologia, Tafonomia, Geotafonomia, Antropologia de campo, Geomática, Tecnologias da informação e Bioantropologia.
Até lá!
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