Dia 1 . Sexta-feira, 27 de Março de 2009
09h30-10h00
Miguel ALMEIDA . A recuperação do registo osteoarqueológico em contexto
de salvamento: potencial científico vs. Condicionamentos metodológicos
Os princípios teóricos e metodológicos fundamentais da actual “Arqueotanatologia” foram desenvolvidos desde o início
da década de 1980, maioritariamente graças ao impulso dos trabalhos de Henry Duday e da sua equipa do Laboratório de
Antropologia de Bordéus, fundadores da “Anthropologie de terrain”.
O que este desenvolvimento metodológico introduziu foi uma atenção muito rigorosa à recuperação detalhada não apenas
dos vestígios osteológicos humanos, mas também da totalidade da informação contextual que lhes está associada no registo
arqueológico.
Duas premissas de base justificavam esta nova proposta metodológica:
1º. Que aqueles vestígios e informação comportam um enorme potencial informativo sobre os mais diversos aspectos das
sociedades passadas em que se integraram os indivíduos em questão; e
2º. Que a exploração eficaz deste manancial de informação é incompatível com a restrição das responsabilidades do
antropólogo ao estudo laboratorial dos ossos, visto que uma parte decisiva da recuperação da informação se opera (e muitas
vezes se perde!) na fase dos trabalhos de terreno.
Nestes termos, a “Anthropologie de terrain”, hoje Arqueotanatologia, introduz a necessidade de uma efectiva
interdisciplinaridade nas intervenções sobre sítios arqueológicos com vestígios osteológicos humanos.
Do ponto de vista do saldo científico, a adopção do paradigma arqueotanatológico resulta num incremento muito
significativo da contribuição efectiva dos vestígios osteoarqueológicos para a compreensão dos fenómenos sociais do
passado, mas implica a aceitação de um conjunto de procedimentos, desde logo em fase de terreno, que são condições
indispensáveis de aplicação do método e que representam um impacto importante em termos de volume de trabalhos a realizar
no campo. Este impacto acrescido de tarefas de campo tem justificado muitas vezes a opção por estratégias mais expeditas de
recolha dos vestígios osteoarqueológicos. Sempre com perdas irrecuperáveis de informação.
É neste âmbito que a equipa Dryas vem desenvolvendo desde há vários anos uma actividade de investigação operacional
que visa a criação de procedimentos específicos de aplicação dos métodos da Arqueotanatologia também em contextos de
Arqueologia de salvamento, nos quais o factor “duração da intervenção de campo” constitui efectivamente uma condicionante
muito importante das opções estratégicas das equipas de Arqueologia.
A nossa experiência demonstra que esta aplicação da Arqueotanatologia em contexto de salvamento é perfeitamente
viável, não parecendo por isso admissível a realização de intervenções de terreno com métodos menos eficazes na recuperação
da informação e vestígios osteoarqueológicos sob pretexto da urgência dos trabalhos de salvamento.
10h00-11h00
Eugénia CUNHA . Conhecer os nossos antepassados através do esqueleto
Os ossos humanos são uma fonte incontornável e insubstituível de informação para várias ciências, como a antropologia,
a biologia, a medicina, a arqueologia e a história. Como parte do corpo humano, têm obrigatoriamente que ser lidos de um
modo holístico e integrado o que implica conhecer o tecido ósseo, numa perspectiva fisiológica, histológica e genética, e
entender os processos de decomposição dos tecidos moles. Não é, assim, possível interpretar um osso seco sem conhecer como
foi esse osso enquanto vivo. Outro aspecto essencial para uma leitura correcta dos ossos é ter noção e experiência da
variabilidade humana, designadamente, para uma exacta discriminação entre variantes morfológicas e patológicas.
Por outro lado, o contexto onde os vestígios humanos são encontrados é da maior importância para outra atribuição
chave dos antropólogos, explicar porque é que determinados restos humanos estão no estado de preservação com que foram
detectados e não num outro. A interpretação do estado de conservação implica, então, e obrigatoriamente, o contributo de
outras ciências, o que torna o estudo dos ossos uma tarefa multidisciplinar.
São apresentados casos práticos ilustrativos quer da relevância do conhecimento do ossos enquanto tecido vivo, quer
da transdisciplinaridade em antropologia biológica. Simultaneamente os casos reportados elucidam sobre o contributo da
descodificação dos ossos para as várias ciências referidas.
11h30-13h00
Miguel ALMEIDA . O contexto geoarqueológico
Ultrapassado (dificilmente) o paradigma positivista, a interpretação do registo arqueográfico progrediu numa crescente
necessidade de controlo dos processos de constituição e evolução pós-deposicional dos níveis arqueoestratigráficos.
Esta necessidade — nascida do desenvolvimento fundamental da Arqueologia pré-histórica no sentido da imposição de um
novo paradigma, dito Paletnológico — alastra-se gradualmente aos períodos mais recentes, estabelecendo o imperativo
metodológico de uma minuciosa e prévia crítica das fontes, no caso da Arqueologia identificadas com os próprios documentos
estratigráficos.
Como consequência, a Tafonomia assume um papel essencial no processo de interpretação do registo arqueográfico. Com
efeito, sob o impulso pioneiro de Bar-Yosef e Isaac, os princípios da BIOtafonomia, criada por Efremov como corpus
científico interessado pelo estudo dos processos sin e pós-deposicionais observados em organismos biológicos, foram
aplicados por analogia à evolução dos corpos estratigráficos desde o momento da sua deposição inicial, criando assim as
bases fundamentais do que hoje se constitui como a GEOtafonomia, domínio fundamental de qualquer inquérito arqueológico,
frequentemente enquadrada no âmbito da Geoarqueologia.
Sendo a Biotafonomia um dos vectores fundamentais deste curso, nesta aula preliminar abordaremos (quase)
exclusivamente questões de Geotafonomia e mais particularmente os processos tafonómicos que afectam (a diferentes escalas:
dos próprios vestígios osteológicos, enquanto elementos estratigráficos; da sepultura; da necrópole) o registo
osteoarqueológico.
O objectivo da aula consiste em descrever os princípios básicos e metodológicos da contextualização
arqueoestratigráfica do registo osteoarqueológico, factor prévio, mas decisivo da eficácia da interpretação subsequente
deste tipo registo.
14h30-16h00
João PINHEIRO . Processos de decomposição
Nem sempre um cadáver é sujeito aos rituais fúnebres e respectivo enterramento ou cremação. Em casos de crimes, mortes
súbitas e/ou sem assistência médica em que os corpos não foram recuperados num período de tempo curto, este entra em
decomposição. Um palavrão institucionalizado mas que quer dizer muitas coisas. Desde logo porque nessa decomposição se
incluem muitas vezes, e mal, processos que são mais de conservação que de decomposição. Referimo-nos à adipocera e
mumificação, este último praticado artificialmente, desde tempos ancestrais, para a conservação dos corpos. Mas a
verdadeira decomposição inclui, com muito mais propriedade, a putrefacção e, se esta seguir o seu curso normal, a
esqueletização até à fossilização.
É destes estados e processos que nos ocuparemos nesta sessão. Porque arqueólogos, antropólogos e patologistas forenses
podem encontrar, na sua pratica diária, com menor ou maior frequência dependendo da respectiva especialização, corpos não
frescos - é este o termo técnico - em diferentes estados de decomposição/preservação, que é preciso estudar, analisar,
dissecar.
Debateremos estes diversos estados da decomposição cadavérica, caracterizando-os de um ponto de vista prático, muito
mais que do da subcategorização precisa em fases muito bem estabelecidas, contudo de grande variabilidade e a carecer de
comprovação experimental, realçando as suas virtualidades e potencialidades em termos não só científicos, mas também
forenses.
Se um cadáver estiver podre - termo técnico – valerá a pena esforçarmo-nos se, como é comum ouvir-se, a putrefacção é
o maior inimigo do patologista? É certo que a putrefacção dificulta o trabalho do patologista, mas há ainda muitos
diagnósticos que poderão ser estabelecidos, até os menos espectáveis como por exemplo, de doenças naturais. É verdade que
a saponificação transforma o corpo numa massa cerosa de cor esbranquiçada, que confundirá as cores próprias e a disposição
dos órgãos? Sim, mas pode, apesar disso, permitir seguir trajectos de bala ou de arma branca, com assinalável sucesso. E
um corpo mumificado, que já quase não contém órgãos, que tipo de informação poderá proporcionar? Mais do que o que se possa
pensar à primeira vista. Pode permitir uma identificação, uma vez que conserva a fisionomia melhor que qualquer outro
processo. Será por outro lado que a esqueletização em climas temperados como o nosso ocorre, como se lê na literatura,
entre os 12 e 18 meses após a morte? Sabemos por experiencia própria que pode verificar-se tão só em 15 dias a 3 semanas na
nossa região, mesmo fora do Verão.
Tudo isto e muito mais, dentro de momentos, na conversa que se segue.
16h30-18h00
Maria Teresa FERREIRA . Tafonomia e Arqueotanatologia
O fundamental do corpo conceptual que sustenta metodologicamente os trabalhos de Antropologia de terreno constitui-se,
em França, sobretudo a partir de princípios de 1980. Desde então, esta área tem-se consolidado, sendo um dos principais
eixos de pesquisa no domínio dos estudos antropológicos de necrópoles.
A Antropologia de terreno, actualmente designada de Arqueotanatologia, implica uma abordagem holística e dinâmica cujo
objectivo é o de compreender as circunstâncias dos enterramentos através da reconstrução dos acontecimentos post mortem e
dos processos tafonómicos ocorridos desde o momento da deposição do cadáver até à sua recuperação.
Os objectivos e métodos desta disciplina são independentes da cronologia dos restos ósseos e das práticas funerárias,
tornando os procedimentos preconizados pela Arqueotanatologia fundamentais na recuperação de vestígios osteológicos humanos.
No âmbito da Arqueologia, a Arqueotanatologia permite assim uma compreensão global das práticas funerárias e do
funcionamento sincrónico e diacrónico dos espaços sepulcrais imprescindível sempre que estamos na presença de ossos
humanos, permitindo não só aceder aos quadros mentais das populações do passado como possibilitando também uma análise
ulterior mais detalhada dos aspectos paleobiológicos das populações do passado.
Recorrendo a exemplos empíricos, apresentaremos de forma sistemática algumas das alterações a que primeiro os
cadáveres e depois os esqueletos estão sujeitos uma vez enterrados, salientando a importância de tais alterações para a
compreensão da evolução pós-deposicional de contextos mortuários e funerários.
18h00-19h00
Maria João NEVES . Abordagem interdisciplinar do registo
osteoarqueológico: metodologia de exploração
O potencial informativo do registo osteoarqueológico vem sendo crescentemente afirmado nas últimas décadas através do
desenvolvimento contínuo de novos métodos de terreno que produzem conjuntos de dados e observações mais rigorosos,
permitindo por isso maiores ambições e acuidade na fase de tratamento laboratorial e interpretação dos dados relativos à
vida e morte dos indivíduos estudados.
Em Portugal, a inclusão obrigatória de antropólogos nas equipas de escavação de necrópoles encontra-se consignada no
Regulamento dos Trabalhos Arqueológicos em vigor, publicado em 1999. No entanto, e volvida mais de uma década, não existe
ainda qualquer prescrição legal que regulamente especificamente os trabalhos da Antropologia de campo, ao contrário do que
acontece para os restante trabalhos arqueológicos, em que as diversas etapas de trabalho se encontram descritas e
regulamentadas na legislação vigente — desde a autorização para a sua realização até à documentação a apresentar em sede de
relatório.
Esta lacuna legal permite a aplicação de uma multiplicidade de procedimentos de escavação, recuperação e tratamento do
material ósseo demasiado díspares, que se traduzem demasiado frequentemente em perdas irrecuperáveis da informação relativa
às práticas funerárias, processos tafonómicos e de formação de sítio, impossibilitando a posterior correcta interpretação
dos conjuntos sepulcrais e a sua análise paleobiológica.
Esta situação, adquire por vezes contornos alarmantes em contextos de emergência e prevenção, nos quais muitas vezes
as equipas de engenharia e de direcção de obra impõem ritmos incompatíveis com os trabalhos de Antropologia de campo. Que
fazer?
Neste quadro, temos vindo a propor a implementação sitemática de um programa metodológico que respeite o protocolo de
escavação e recuperação do material osteológico preconizado pela Arqueotanatologia e que tenha como princípios fundamentais:
a planificação prévia dos trabalhos; a pluridisciplinariedade (a tempo integral) e qualificação específica das equipas de
campo; a concepção global do sítio como unidade digna de atenção multidisciplinar; e a completa recuperação dos vestígios,
assim como de toda a informação de campo.
Este procedimento constitui condição sine qua non de uma crítica rigorosa dos processos tafonómicos que
afectaram o cadáver e o esqueleto após a inumação, ponto de partida indispensável para uma reconstituição fundamentada das
práticas funerárias e contextos societários da inumação.
Dia 2 . Sábado, 24 de Abril de 2010
09h00-13h00
Miguel ALMEIDA, Maria Teresa FERREIRA, Maria João NEVES, Ana Maria SILVA . Abordagem interdisciplinar do registo
osteoarqueológico: Arqueotanatologia e Arqueologia da Morte (aula Prática)
A escavação de necrópoles pressupõe uma colaboração próxima entre arqueólogos e antropólogos, responsáveis pela
co-direcção técnico-científica deste tipo de intervenções. Porém, e apesar desta colaboração produzir em Portugal alguns
exemplos bem sucedidos, subsistem dificuldades na compreensão e articulação de procedimentos metodológicos de trabalho,
sobretudo durante as intervenções de campo.
Esta aula visa promover a colaboração efectiva em momentos estratégicos da realização directa de observações de campo,
da tomada de decisões em conjunto e da interpretação dos resultados obtidos durante os trabalhos de campo. Para tanto,
importa familiarizar cada um dos campos desta colaboração inter-disciplinar (arqueólogos e antropólogos) com métodos,
objectivos específicos e discursos da “outra parte”, com os quais nem sempre têm um contacto muito directo, a fim de
desenvolver uma partilha de informações e de responsabilidades eficaz.
Neste sentido, esta aula prática centrar-se-à na manípulação directa de conjuntos esqueléticos e na interpretação dos
seus contextos arqueo-estratigráficos. Através da solução de casos práticos em grupos pluridisciplinares de problemas
relativos à interpretação de conjuntos ósseos integrados no seu contexto arqueo-estratigráfico, faz-se uma simulação de
situações de campo com as quais nos deparamos diariamente e cuja resolução eficaz não se consegue sem a participação de
equipas transdisciplinares capazes de abordar e interpretar de forma integrada os distintos problemas do registo
arqueológico dos contextos com vestígios osteológicos humanos.
14h30-15h30
Ana Maria SILVA . A abordagem paleodemográfica
Os restos ósseos humanos constituem uma fonte extremamente valiosa na obtenção de dados dos indivíduos a que
pertenceram e, consequentemente, obter inferências sobre as populações do passado. Os parâmetros demográficos, como a
estimativa do número mínimo de indivíduos, da idade à morte e da diagnose sexual constituem informações biológicas básicas
e imprescindíveis na análise e interpretação subsequentes de vestígios ósseos humanos. Aspectos como a antropologia
funerária, a estrutura etária, a mortalidade, a fertilidade, as análises morfométricas e patológicas, podem ser
influenciadas por diagnósticos demográficos errados. Será também realçado a distinção entre os conceitos de género e sexo,
dado que em contextos funerários particulares, podem ser bastante distintos e levar a interpretações erradas.
Nesta aula, mais do que uma apresentação exaustiva dos métodos existentes para estimar estes parâmetros demográficos,
será dado ênfase, aos cuidados a ter durante a escavação de restos ósseos humanos adultos e não adultos, em particular às
áreas anatómicas mais relevantes, de modo a maximizar a obtenção destas informações biológicas básicas e deste modo
aumentar as potencialidades do subsequente estudo antropológico.
15h30-16h30
Sofia WASTERLAIN . O que as ‘bocas’ nos dizem do passado: a importância da análise dentárias nos estudos
paleoantropológicos
Os dentes são uma das provas físicas mais duradouras da existência de um indivíduo após a sua morte. O elevado grau
de mineralização dos tecidos dentários torna os dentes mais duros e, consequentemente, mais duradouros e resistentes a
alterações do que os ossos, permanecendo frequentemente bem preservados mesmo em condições de enterramento pouco favoráveis
e, por vezes, até em cremações. Além disso, fornecem um registo permanente de todas as alterações que ocorram durante ou
após o seu desenvolvimento, já que, uma vez formados, não sofrem remodelação.
As doenças dentárias estão entre as condições mais comummente observadas em colecções arqueológicas de restos humanos.
Quase todos os adultos e muitas crianças sofrem de patologias que afectam os dentes e tecidos envolventes. Muito importante
é o facto dos estudos destas patologias poderem fornecer informações úteis acerca do conteúdo, textura e preparação da
dieta assim como da higiene oral das populações pretéritas, dados que, por sua vez, podem permitir inferir a posição social
de alguns indivíduos relativamente a outros ou suspeitar de eventuais diferenças sexuais que possam ter existido ao nível
da alimentação e do trabalho dentro de uma determinada população.
Nesta apresentação, pretende-se destacar algumas das mais comuns condições dentárias, nomeadamente a cárie dentária,
o desgaste dentário e a perda dentária ante mortem, e discutir o modo como as suas prevalências e distribuições nos podem
informar acerca de factores comportamentais, sociais e económicos das populações do passado.
17h00-18h30
Miguel ALMEIDA, Maria Teresa FERREIRA, Maria João NEVES, Sofia WASTERLAIN,
Ana Maria SILVA . Parque do Anel Verde’09 / Vale da Gafaria (Lagos):
condicionantes, resultados científicos e potencial social de uma intervenção de Arqueologia de salvamento
A construção de um estacionamento no "Valle da Gafaria" constituíu uma oportunidade inestimável de documentação
objectiva da História moderna de Lagos e de Portugal. Concretizar esta oportunidade, porém, impunha uma intervenção
multidisciplinar (de Arqueologia, Geomorfologia e Arqueotanatologia), a fim de garantir a recuperação integrada da
informação histórica conservada no sítio.
Foram princípios fundamentais, estratégia e métodos desta intervenção:
- a compreensão dos processos de formação e evolução pós-deposicional das unidades geoarqueológicas reconhecidas no
campo;
- o controlo estratigráfico rigoroso dos vários níveis arqueológicos;
- a recuperação de conjuntos artefactuais representativos das sucessivas ocupações documentadas no local;
- a recuperação integral da informação espacial, estratigráfica e contextual relativa às estruturas edificadas;
- a recuperação integral dos vestígios osteoarqueológicos e informação associada.
Resultou um vasto acervo documental associado a conjuntos artefactuais relevantes para:
- a compreensão da estrutura da paisagem local e sua evolução geomorfológica recente;
- a caracterização de dois fornos cerâmicos anteriores às primeiras ocupações referidas nos documentos históricos
conhecidos;
- a caracterização tecnológica e contextualização arqueoestratigráfica dos edifícios ditos da Gafaria, representados
na cartografia moderna de Lagos, incluída a compreensão dos condicionamentos geomorfológicos, opções de implantação,
evolução e obras de manutenção no edifício principal e a sua relação com outras construções no local;
- a compreensão dos processos de constituição da vasta lixeira moderna existente no local, bem assim como do impacto
sobre a paisagem do seu crescimento;
- a caracterização arqueotanatológica, bioantropológica e paleopatológica tanto dos doentes de lepra inumados na
necrópole da Gafaria, como dos escravos negros enterrados mais tarde na lixeira, a fim de compreender detalhadamente o seu
estatuto social e condições específicas de inumação, buscando elementos sobre a origem geográfica dos escravos em
caracteres biomorfométricos e marcadores culturais no esqueleto.
Assim, o potencial científico do sítio toca problemáticas muito diversas:
- a evolução geológica e geomorfológica da região;
- a evolução urbana e peri-urbana da cidade;
- o impacto antrópico sobre a paisagem;
- a história da Engenharia portuguesa;
- a estruturação da sociedade moderna portuguesa e seu tecido social;
- a história da escravatura e da expansão portuguesa; e
- a história da lepra, do resposta social à enfermidade e da Medicina em Portugal.
A exploração destes temas exige ainda o alargamento do âmbito disciplinar do projecto do Vale da Gafaria de Lagos,
entre outras, nas áreas da Tipo-tecnologia, Arqueozoologia, Antropologia social, Arqueometria e História.
Por fim, face à actualidade de muitos destes temas, ao potencial científico da intervenção soma-se um relevo social
importante. A qualidade da investigação e o impacto da divulgação pública a realizar constituirão por isso os critérios de
avaliação da intervenção realizada no Vale da Gafaria.
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